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sexta-feira, 18 de março de 2011

Tragédias no Japão: opinião e religião


Sim, vou falar sobre opinião e religião. Não espero que todos concordem comigo.

Para começar:
Todos vimos que o terremoto mais forte a atingir o Japão em 140 anos aconteceu na tarde de quinta-feira, 10 de março, e pontuou uma magnitude de 8.9 graus na escala Richter. O abalo sísmico aconteceu próximo à costa nordeste do país, a uma profundidade relativamente baixa, e ainda que estragos tenham ocorrido devido ao terremoto propriamente dito, foi a tsunami decorrente do tremor que causou mais vítimas. Posteriormente, explosões e vazamentos radioativos em Fukushima lançaram ao mundo o temor de um novo grande acidente nuclear.

Até o momento, tenho dois comentários a fazer sobre a reação das pessoas deste lado do mundo. Como eu disse, não espero que todos concordem comigo.

I
Nos dias que se seguiram, ouvi muita gente – inclusive na televisão – dizendo clichês como “com a natureza não se brinca” ou então “a natureza está se vingando”, várias vezes relacionando o triste acontecimento no Japão às agressões humanas ao meio ambiente e até mesmo ao aquecimento global. E isso não faz o mínimo sentido. Basta ter um pouquinho – só um pouquinho! – de discernimento para entender que um terremoto é um fenômeno puramente geológico, sem nenhuma relação causal com as atividades humanas. Se você abraçar um panda e plantar mais de 8 mil árvores, não vai fazer diferença, campeão, porque terremotos são inevitáveis. A natureza não está punindo ninguém. (E até mesmo a relação entre aquecimento global e atividade humana ainda encontra certas linhas de questionamentos científicos. Apesar da tal “verdade inconveniente” fazer sucesso entre ambientalistas e cults que querem parecer engajados, existem trabalhos científicos que relacionam as mudanças climáticas, por exemplo, a ciclos glaciais e muito menos à atividade humana do que esse pessoal gostaria. Bom, essa já é outra história.)

II
Voltando ao Japão, vem aí outro posicionamento que considero igualmente incoerente, desta vez postado em comentários relacionados a vídeos que registraram a tsunami engolindo a cidade de Sendai. Vários desses comentários – e depois encontrei posts inteiros – relacionavam os acontecimentos ocorridos no Japão àquilo que os autores chamaram de culto a “deuses estranhos” ou simplesmente outros deuses. Outro dizia que os japoneses deveriam abraçar Jesus Cristo – o único Deus – e deixar “os seus deuses” para trás. E eu me pergunto: com que critério alguém julga um deus estranho ou não, único ou não? Particularmente, não vejo sentido no discurso de religiosos como esses, que acreditam num Deus de amor, de perdão, de compreensão e de bondade, mas que ainda assim pode se mostrar punitivo ou então omisso ao permitir que os pagãos (e uso o termo sem nenhum juízo de valor) sofram e morram apenas por não serem católicos, evangélicos ou o que quer que sejam. Não questiono a crença, mas o discurso. Penso que falta um pouco de coerência interna. E, falando por mim, a imagem que tenho de Jesus Cristo não é nem um pouco parecida com essa. Se as pessoas pudessem, de fato, conversar com Ele cara a cara, eu acredito que as atitudes que elas tomam diante de suas vidas seriam mais relevantes do que o nome que elas dão aos seus deuses. Acho extremamente incoerente acreditar que pessoas estão sendo “punidas” (ou chame como quiser) porque não seguem uma ou outra religião. O mundo seria um lugar melhor se mais gente abrisse a cabeça para aquilo que é diferente.

E é só isso. (G.P.)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre Hatsune Miku e um futuro (não tão) distante

Hatsune Miku tem 16 anos, mede 1,58 m de altura e pesaria 42 kg se não fosse uma projeção. Criada pela Crypton Future Media Inc., empresa de produção fonográfica localizada em Sapporo, no norte do Japão, Hatsune foi desenvolvida por meio da tecnologia Vocaloid, que cria vozes sintéticas e permite ao usuário compor músicas e adicionar interpretações vocais a elas sem a necessidade de um intérprete real. É um fenômeno novo na indústria audiovisual, mas vai além. Pois Hatsune Miku não é apenas uma voz; ela é uma diva completa. Baseada no design dos personagens do mangá japonês, ela escapa das telas de computadores e Ipods para cair num ambiente bem mais real, digamos assim. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Tenho de concordar que, neste caso, é verdade. Para entender, nada melhor do que assistir ao vídeo do show de Hatsune "ao vivo":



Hatsune Miku é uma interface entre o mundo binário e o mundo tridimensional. Ao ser inserida num palco diante de centenas de espectadores, porém, ela deixa de ser uma simples projeção para se tornar o simulacro de uma cantora pop. Nesse ambiente, ela é capaz de despertar no público as mesmas emoções e sensações que uma cantora real despertaria. Talvez até mais, considerando-se o seu design de grande apelo. Da interação entre a diva holográfica e o público de carne e osso, nasce um novo tipo de fetichismo – que dificilmente seria criado num local que não fosse o Japão. E ela faz a gente se perguntar: o que é real?



Esse tipo de projeção não é uma novidade tão inédita no entretenimento. Atrações da Disney já fazem uso desse recurso há algum tempo. A novidade, porém, é a realização de um show completo estrelado por uma cantora que não existe, cujas canções não foram gravadas na íntegra por uma dubladora real, mas geradas por um programa de computador. Quando o público se relaciona com um software da mesma forma que o faz com uma pessoa real, isso faz a gente se perguntar qual é o limite na relação entre homem e máquina.

Esse tipo de tecnologia encontra críticas ocasionais, principalmente vindas das gerações mais antigas, que se perguntam o que acontecerá com as relações interpessoais no futuro. Bem, por enquanto Hatsune Miku ainda precisa do fator humano presente na criatividade do compositor, pois, obviamente, ela não cria suas próprias músicas. Mas o que vai acontecer quando novos softwares permitirem às máquinas tomarem decisões por si próprias? Pode parecer ficção científica, mas isso já acontece com os robôs que viajam em Marte, por exemplo, que são capazes de analisar o ambiente e tomar algumas decisões sem precisar da autorização de seus controladores da Nasa.

Imaginemos então um mundo em que máquinas, ou suas representações holográficas, tomem decisões e se reproduzam como faz o ser humano. Dizemos – pelo menos deste lado do mundo – que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Em teoria, podemos supor então que nessa “semelhança” está incluído o potencial que o homem tem de criar um outro “ser” à imagem e semelhança do próprio homem. Quando o avanço tecnológico culminar num andróide capaz de tomar suas próprias decisões e fazer cópias de si mesmo, talvez seja impossível diferenciá-lo de um ser vivo. Até lá, Hatsune Miku nos dá uma agradável prévia. (G.P.)