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sábado, 7 de maio de 2011

O senhor que sabia voar



Durante sua vida sexagenária, ele já havia lido tantos livros de fantasia quanto eram necessários para saber que pessoas podem, de fato, voar. No entanto, ele já havia lido também muitos livros sobre aviação, física e anatomia das aves, tantos quanto eram necessários para saber que seres humanos simplesmente não têm a aerodinâmica necessária.

Mesmo assim, ele sabia que voar era possível, pois já havia conseguido. Várias vezes, na verdade. Tudo o que ele precisava fazer era estender a cabeça para a frente, abrir os braços e saltar na direção da brisa. Depois que já estava no ar, bastava guiar-se na direção pretendida e, de alguma forma, manter o corpo leve. Não era um processo natural, é claro, como ocorre para os pardais, os colibris e as gaivotas; nem sempre ele conseguia levantar voo, e às vezes esbarrava numa árvore ou num prédio. Mas, durante as décadas, ele aprendeu a controlar altitude, velocidade e direção.

Ninguém nunca o havia visto voando. Quando ele era criança, talvez aos cinco ou seis anos, todos os seus voos aconteceram quando nenhum adulto estava por perto. Sua mãe, obviamente, não acreditava que ele pudesse voar, mas era suficientemente inteligente para sorrir com bondade e encorajá-lo nas aventuras que considerava imaginárias.

Depois de adulto, foi a vez de sua esposa desacreditá-lo. “Como pode um banqueiro respeitável, com uma imagem a zelar na sociedade, manter sonhos juvenis como esse?”, dizia ela. Tudo o que ele fazia em resposta era sorrir jocosamente e dar-lhe um beijo na testa, e continuava voando naqueles momentos em que manter a imagem perante a sociedade não era uma prioridade. Voar era uma das duas coisas que lhe davam mais prazer na vida. A outra era observar os elfos que habitavam a árvore em frente à sua casa.

Os elfos eram criaturas extraordinárias. Eram muito similares a humanos, tanto em tamanho como em aspecto, mas algo neles denunciava uma presença quase extraterrestre. Eles emanavam um brilho pálido, como estrelas em forma humanóide, e estavam sempre absortos em algum tipo de labor misterioso, sistemático, que o senhor que sabia voar observava à distância. Envolvidos na metodologia de seu trabalho, os elfos caminhavam graciosamente sobre os galhos da árvore. Às vezes, o senhor que sabia voar tentava comunicar-se com eles, mas eles sempre o ignoravam, e quando ele chegava perto demais, corriam para dentro das folhagens, desaparecendo como se nunca tivessem estado ali.

Os elfos da árvore eram os únicos que o senhor que sabia voar via de perto, mas ele sabia que existiam outros elfos em algum lugar. E os elfos também sabiam voar. Às vezes, ele via grandes grupos de elfos, talvez trinta ou quarenta deles, todos usando capuzes brancos, voando a grandes atitudes de braços abertos sob as nuvens cor de cobalto, sempre do Oeste para o Leste. Ele não sabia aonde os elfos iam, mas gostava de imaginar uma terra de elfos acessível apenas àqueles que sabiam voar. Um dia, talvez, ele voaria até lá.

A primeira pessoa que, de fato, acreditou que ele era capaz de voar foi o seu neto de quatro anos. Quando ficou sabendo das façanhas do avô, nunca fez pergunta alguma em tom de dúvida. “Deve fazer muito frio lá em cima, vovô”, foi tudo o que ele disse. Em seu aniversário de 61 anos, ganhou do neto um cachecol de lã vermelha, para que ele usasse quando estivesse voando. Foi o melhor presente que alguém já havia lhe dado.

Naquele momento, porém, apesar de estar muito feliz, ele já havia começado a perceber que o tempo pode ser um companheiro deveras cruel. Dores terríveis nos joelhos tornavam difícil tomar o impulso inicial na hora de voar e o ar gelado fazia mal aos seus pulmões. Um dia, ele começou a temer que nunca mais conseguisse sair do chão. Resolveu, então, ensinar ao neto como fazê-lo. Durante longas tardes de outono eles praticavam, e às vezes observavam juntos os elfos que passavam voando numa formação em V durante o crepúsculo.

Um dia, porém, tudo acabou subitamente. O senhor foi dormir, depois de tomar o seu chá com cinco gotas de limão, e nunca mais acordou. Seu coração simplesmente recusou-se a continuar fazendo o seu trabalho. Todos pensaram que ele havia morrido, e ficaram muito tristes. Seu neto, no entanto, era o único que sabia que, na verdade, ele havia ido voar com os elfos entre as nuvens de cobalto, onde o joelho não doía e não havia a imagem de banqueiro respeitável a zelar, com o cachecol vermelho ondulando ao vento, para sempre. (G.P.)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Estação

São muitos os que chegam à estação. E todos estão sozinhos. Às vezes chegam em pares, em dezenas, dúzias, grosas... Milhões todos os dias. Mas todos estão sozinhos. A solidão os acompanha de perto, fitando-os nas sombras. E também a saudade... É a mais sutil das particularidades humanas, mas uma das mais dolorosas. E aqui, na estação, ela se faz mais presente, pesando em cada ombro como uma tonelada de chumbo, como uma lágrima daquelas bem salgadas. Às vezes a saudade é a solidão, às vezes a solidão é a saudade.

São muitas as idades dos muitos que chegam à estação. A maioria traz consigo as rugas como troféus, profundos sulcos de sabedoria que o tempo talhou como um artesão molda sua madeira. Mas há aqueles que chegam jovens. Alguns são crianças em tenra idade, que poderiam muito bem levar nas costas as asas dos anjos – e quem sabe não levarão? Há também aqueles que carregam beijos de amor ainda mornos, e esses são de todos os mais tristes.

São muitos os rostos dos muitos que chegam à estação. Alguns chegam tristonhos. Alguns, curiosos. Muitos entoam preces, as últimas esperanças do ser humano. Apesar de na estação estarem todos incólumes, muitos parecem amedrontados. Há também aqueles resolutos, os únicos que compraram tickets, que carregam a triste obstinação dos suicidas. Há os desesperados e aqueles que parecem nem perceber o que aconteceu. E há os taciturnos, pensativos, que filosofam sobre o sentido de todas as coisas. Mas alguns – poucos, é verdade – sorriem do fundo do coração, talvez porque tenham finalmente entendido a verdade que sempre buscaram, ou descoberto que, no final das contas, tudo não passou de uma grande e divertida piada.

Nenhum dos muitos que chegam à estação traz malas pesadas. Nem mesmo bagagem de mão eles levam. Nada, na verdade. Mas, ao mesmo tempo, levam tudo. Levam eles mesmos, que é tudo o que têm agora e tudo o que sempre tiveram. Nenhum deles sabe para onde estão levando, apesar de alguns continuarem conjecturando em meio a uma e outra prece.

Há muitos de muitas cores, muitos de muitas raças, muitos de muitas classes sociais, muitos falantes de muitas línguas, muitos crentes de muitas religiões. Na estação, são todos iguais. Eles sempre foram, mas talvez só agora se dêem conta. Realmente dizem que as pessoas só entendem essas coisas quando é tarde demais.

Quando chega a hora, todos sobem no trem.

É a última metáfora. É o último eufemismo. (G.P.)