quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Palimpsesto

E as memórias avolumaram-se sob o deserto, até um dia em que restaram apenas camadas e mais camadas de areia sob um sol vermelho. Um sol moribundo. E sob a areia, lá embaixo, fósseis daquilo que um dia fomos, tão velhos que não havia mais ninguém para contar o tempo. (G.P.)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O paradoxo da modernidade tardia

Muitos autores, hoje em dia, falam sobre a fragmentação da realidade: sobre a inexistência de metanarrativas, sobre concepções múltiplas sobre o mundo, sobre a invalidade das verdades absolutas, sobre a simulação que sobrepuja o simulacro, sobre mundos dentro do mundo. Todos esses autores, na minha opinião, estão descrevendo a pós-modernidade. E essa pós-modernidade, por sua vez, diferencia-se da modernidade pela ausência de uma linha cronológica única (a História).

Para a modernidade, diferentes explicações sobre a existência vinham uma atrás da outra – e, cada vez que surge uma nova, a anterior é (e precisa ser) destruída por meio de um fenômeno chamado destruição criativa. Para a modernidade, o que é novo é melhor do que o que é antigo e, por isso, ganha automaticamente o direito de destruir o que veio antes, pelo bem do progresso, da História linear, do futuro.

A pós-modernidade (seja qual for sua descrição) refuta tudo isso. Não existe mais uma explicação única, uma só verdade, nem mesmo um mundo “real” que seja íntegro. Tudo é fragmentado. Porém, ao dizer que o mundo em que existia uma verdade única acabou, não está a própria pós-modernidade repetindo uma prática modernista de dizer que o que veio antes precisa acabar para que o novo possa existir? (G.P.)

quarta-feira, 12 de março de 2014

A briga da Criação

A área de Criação (que hoje eu chamo de produção editorial) compreende redação e arte. Conteúdo e forma. E essa, meus caros, é uma briga antiga. Neste breve artigo nós não vamos entrar no mérito filosófico e definir o que é conteúdo e o que é forma; não vamos citar caras como McLuhan e sua famosa expressão “O meio é a mensagem” (opa, já citei!). Aqui o que nós vamos fazer é manter o pé no chão e nos ater a dois aspectos que julgo muito importantes para quem trabalha na área de Criação e, consequentemente, toma decisões diárias em relação à produção de peças de comunicação. Vale qualquer peça (uma revista, um jornal, um report institucional, um newsletter, um livro, uma HQ...), pois esses são aspectos básicos da nossa labuta diária nesse mercado tão glamoroso (#sqn).

Por onde começar, então? Um caminho é entender que para o grande público, o conteúdo e a forma são muitas vezes indivisíveis – e isso é muito bom, pois é exatamente assim que tem de ser. Não cabe ao leitor de um livro, por exemplo, questionar a disposição do texto num grid, pois elementos textuais e gráficos precisam funcionar juntos, de modo que o leitor não se incomode. Em peças de comunicação do dia a dia, como o newsletter da sua organização, a forma precisa trabalhar junto com o conteúdo – afinal você não está pintando um quadro de Pollock. A escolha de fontes, tamanhos de títulos, recuos de parágrafos, balanço entre branco e preenchimento, imagens, grafismos e espaçamentos entre linhas não pode causar estranheza (a não ser, é claro, que o objetivo da peça seja justamente causar estranheza). A mesma coisa vale para o texto, pois você não está fazendo literatura. Redação e arte devem caminhar lado a lado, uma se apoiando sobre a outra de forma simbiótica e geralmente sóbria, seguindo um caminho comum que perpassa decisões conceituais e uma dose variável de gosto pessoal das pessoas envolvidas. Para quem trabalha com Criação, são esses os aspectos que julgo mais importantes para alcançar um nível desejável de qualidade editorial.

O conceito é a gênese de todo o resto > O conceito é o berço de qualquer peça de comunicação. O que queremos comunicar, com qual objetivo, a quem? Que tom queremos usar em nosso discurso?  Qual a mensagem central? Quais as mensagens secundárias, quais as informações de suporte? Quais valores devem estar implícitos em nossa fala? Tudo isso é conceito.

O conceito é a premissa do trabalho, de onde todo o resto vai partir. Isso significa que ele deve estar contido em todas as etapas da Criação. Uma revista de moda, por exemplo, terá um discurso e uma diagramação diferente de uma revista de finanças; um mesmo release, quando apresentado ao público interno de uma empresa, será diferente daquele publicado para investidores ou para o mercado em geral. Essas diferenças devem estar contidas no texto e na arte. Nem apenas em um, nem apenas no outro. Fazer a ponte entre os dois é certamente uma das tarefas de quem trabalha com Criação e as decisões sobre o que mudar num job em andamento, invariavelmente, devem passar por uma revisão conceitual. Se está adequado ao conceito, permanece. Se não está, pode ser lindo ou soar como poesia, mas em algum ponto alguém vai ter de ser chato e cortar.

Ok, parece fácil quando colocado dessa forma, mas o dia a dia é outra coisa. Nem sempre as coisas serão preto no branco; há uma dose bem grande de áreas cinzentas. Às vezes as coisas estão, sim, corretas conceitualmente, mas ainda assim o responsável pela Criação vai cortar. Por quê? Simplesmente por estilo. E gosto pessoal é uma coisa muito complicada.

E você, gosta de quê? > Entre o pessoal da redação, tem quem goste de períodos curtos e frases de efeito, tem quem goste de distribuir vírgulas a granel, tem quem goste de travessões, tem quem goste de apostos, tem quem goste de repetir palavras para criar um efeito coloquial (veja, por exemplo, quantas vezes eu repeti “tem quem goste”), tem quem goste do lead tradicional ou de aberturas invertidas à moda de jornalismo de revista... Tem muita gente que gosta de muita coisa. Algumas são inadequadas a determinadas peças, mas haverá momentos em que várias opções funcionam. E aí, qual escolher?

Já entre o pessoal de arte, tem gente que gosta de minimalismo e gente que gosta de rococó; tem gente que gosta de muito branco na página e gente que gosta de blocos pesados de texto; tem gente que justifica e gente que recua à esquerda. Quando se trabalha com um cliente específico, manuais de branding fornecem regras, mas mesmo essas regras são tênues e há muitas decisões que devem ser tomadas com base em estilo. A Gestalt, muitas vezes, dá um direcionamento, mas, ainda assim, restam decisões entre aspectos que não estão certos ou errados. Essas decisões recaem, mais uma vez, em estilo, e é nesse ponto que o cara da Criação vai ter de entrar dizendo coisas como: “Falta alguma coisa aqui... Falta um tchan!”, “E se a gente tirar isso e colocar aquilo?” – ou mesmo “Chega! Vamos mudar tudo!”, e alguém vai dizer (ou pensar, quando faltar a liberdade para dizer) “Porra, cara, então por que você não vem aqui e faz?!”.

Na verdade, o que esse profissional está fazendo é cuidar para que toda a peça tenha um estilo íntegro, independentemente de quem diagramou e de suas preferências pessoais naquele momento. Não é porque ele é chato – talvez ele até seja, mas ser chato não é condição sine qua non para o cargo. Também não é porque ele é mais importante que os colegas ou subordinados; o redator dá, sim, o tom dele às palavras que escolhe, e o diretor de arte também ao escolher uma ou outra imagem, definir um grid de duas ou três colunas, escolher essa ou aquela fonte... A Criação é geralmente um processo colaborativo, e é assim que tem de ser.

No fim do dia, contudo, tudo o que precisamos nos lembrar é que arrumar a casa é o trabalho do cara da Criação. Ele é, afinal, responsável pela harmonia das peças. Nem só pela arte, nem só pela redação. Por tudo – em itálico, porque eu gosto de itálico. (G.P.)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Movie Review: Elysium

Elysium (written and directed by Neil Blomkamp) is a political movie dressed up as sci-fi. It brings us to the year 2154, when the wealthy portion of human kind has moved to an artificial satellite called Elysium. Over there every sickness can be easily healed, the air is clean, there is security, comfort and pleasure. On the other hand, the rest of the entire human population lives on a desolated version of Earth which sadly resembles the so called 3rd world countries. Down here, on Earth, people live in slum-like buildings, work at dangerous production lines to mass-produce goods to be used by the rich portion of the population and have no access to health or education. Just like the world we live in.


Presenting this social scenario using a realistic production design (just like District 9, Blomkamp's previous work), Elysium is a visceral fable about social segregation. Even though some of the fight sequences look too messy and even boring, failing to present the audience with something we have never seen before, Elysium’s production design gets a few points for presenting us a future which looks chaotically and disturbingly like the present. Differently than the amazing Oblivion or the disposable After Earth, two other movies that showed us different versions of destroyed Earths, Elysium’s version of the future looks somewhat less "plastic" and more "rusty", and that is a clever touch. The future does not only look like the present, it is the present.

Once you get to notice this resemblance, you just have to be a little familiar with what happens in our world to start connecting the dots. When a group of illegal immigrants try to force their way into Elysium, for example, it is impossible to avoid thinking about the 10 million (probably more) undocumented immigrants living in United States nowadays, not to mention every single individual who tries to cross the country’s borders with Mexico every day. Actually, the screenplay itself gives us those references ready to swallow – the immigrants even speak Spanish. Maybe that is why two Latin American actors (the Brazilian Wagner Abreu and Alice Braga – whose native language, ironically, is Portuguese, not Spanish) were chosen to star the movie side by side with Matt Damon. Together, their characters will attempt to change society’s status quo, opening the doors of Elysium to everyone on Earth.

And then the movie ends – with the predictable sacrifice and even a flashback montage. But what would happen next, we might ask? As an anti-capitalist revolutionary tale, Elysium’s plot may look exciting while promising to the poor community on Earth tickets to a Heaven where everyone would be considered a legal citizen, but what would happen after billions of people had gotten access to the same resources that only the wealthy once possessed? At this point, we come to the same dead end in which we find ourselves in the real world. (G.P.)

domingo, 11 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 10

10th day, but not in a roll...
"In a certain way, Fuyumi was jealous about the abscence of intentions, goals, protocols to fulfill, passions and quandaries in the existence of a cherry flower. Everything would be simpler if people were as pink flowers falling from a tree after the winter, allowing themselves to be led by the breeze and nothing else."(G.P.)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 9

So you get older, and you start understanding more and more your elders, either what they say and what they don't. And then you start realizing that time goes by, and you better cherish the sand in the hourglass.  (G.P.)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 8

Everything was alright in Paradise until Eve listened to the Snake and took a bite of the Forbidden Fruit. It could be an apple, but it could be anything as well. And it gave her knowledge; suddenly she was aware of their nudity. But weren't they nude the whole time before? It turns out, after all, that sins don't happen without knowledge. (G.P.)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 7

每次我在十字路口的时候, 我都不知道走哪条路好. 但是谁知道? (G.P.)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 6

So I skipped two days...

When the doors were all locked, when he was totally alone, when no one could see him, that was the moment he felt totally and truly free. Isn't it ironic for a man to feel free exactly when the doors are closed behind him? (G.P.)

sábado, 3 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 5

Somewhere out there, a prayer flag is always blowing in the harsh wind. It doesn't matter how far you are; if you keep silent for enough time, you will start hearing it again. (G.P.)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 4

The road lights printing purple trails on my eyes, painting alien landscapes among the darkness, while life goes by on the road – loneliness & companionship, love & hate, wanderlust & the will to settle down. Past & future on the road. (G.P.)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 3

Who are you? That face you show to people... Is that your real self or is that a mask? Under that mask... Is that you, or maybe another mask under a mask? After all, once you remove every layer of masks, what is left? Does that little and fragile creature under the tons of masks you wear represent what you really are? And the most important question: can that naked creature survive in the real world without any mask? (G.P.)

terça-feira, 30 de julho de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 2

"Following the song." There was a time I used to say that a lot. Good ol' days with a good old friend... To follow the song is the same as letting the stream take you wherever it must. The opposite of that is to think about things and make reasonable decisions, which may be good and may be bad. The risk, of course, is to overthink. If you are likely to overthink everything, then you should think about following the song once in a while. But if you think about don't thinking too much, aren't you thinking already? (G.P.)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

1 pic & 1 paragraph per day - Day 1

As every man has light and shadow dwelling within his core, we all have paths covered by light and shadow before us. Although it's desirable to walk under sunlight, there will be certain paths which will require the wanderer to go through gloom and shade. (G.P.)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Sobre o Brasil em 20 de junho de 2013


Eu sou um jornalista. Para os jornalistas, as coisas precisam ser registradas, descritas, narradas, dispostas numa ordem compreensível, com um título que resuma o que está acontecendo. As pessoas precisam entender. Por enquanto, é impossível fazer tudo isso, pois a onda de protestos que ocorrem no Brasil ainda não tem nome. Por enquanto, ainda é impossível dizer se tudo isso é parte de algo maior. Não há, afinal, líderes oficiais ou um discurso que una a todos.

Há o povo. A parte bela do povo. E a parte feia também.

A parte feia quebra coisas. A democracia em si, meus caros, é um conceito belo. Não significa, necessariamente, que o povo está no poder, mas que o poder emana do povo. Democracia não é fazer o que você quer, nem deixar os outros fazerem o que eles quiserem. Defender uma ideia é uma coisa maravilhosa; quebrar bens públicos (e privados) é crime. Invariavelmente, alguém terá de pagar por esses danos – certamente o contribuinte, eu e você, e muito provavelmente aqueles que estão quebrando também. Democracia não é quebrar coisas. Não é queimar ônibus. Não é pichar muros. Democracia não é ir contra a polícia. As pessoas precisam saber que existe diferença entre uma coisa e outra.

Já a parte bela se une sob diversas bandeiras – ou nenhuma – e por diversas causas. Algumas, utópicas. A maioria delas, porém, legítima: menores taxas para o transporte público, menos corrupção, impostos empregados mais eficientemente, menos estádios e mais saúde, educação, segurança.

A imagem que fica, no fim das contas, é a de jovens nas ruas, aos milhares. Um flashback, alguns poderiam dizer. Até então, esse tipo de coisa era um tipo de mitologia advinda de uma época em que era proibido protestar, um tempo de nossos pais e avôs que inspirou uma leva de artistas melancólicos.

Quase três décadas depois, novos jovens saem às mesmas ruas. Contudo, nesse caos de máscaras de Guys Fawkes, hinos nacionais entoados em diversos ritmos e rostos pintados de verde e amarelo parece haver alguma lógica interna.

Lógica essa, diga-se de passagem, ainda incompreendida pelos próprios manifestantes. O que é muito natural. Afinal, essa foi provavelmente a primeira vez que a minha geração se levantou. Que o faça, então, com nada menos que absoluta responsabilidade.