quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sobre sabedoria

Sabedoria é resiliência,
é compreender o que é desapego,
é compreender o que é perdão,
é compreender o que é karma.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre uma obra de arte pós-moderna

Há muita discussão acerca da globalização na pós-modernidade, um fenômeno talvez ainda pouco compreendido que, ao derrubar fronteiras geográficas, culturais, políticas e principalmente comunicacionais, pode, em teoria, tornar homogênea toda e qualquer forma de expressão humana.

Mas eis que às vezes surgem manifestações apátridas e interculturais que, com todo o potencial de obras de arte (abusando da referência inevitável), acrescentam novos fatores a essa equação complexa. É o caso da obra Work of Art, da cantora e compositora brasileira Haikaa Yamamoto, que é interpretada em 19 idiomas diferentes e foi composta a partir de um projeto que envolveu letristas de todos os cantos do planeta.


A canção é interpretada em turco, mandarim, grego, coreano, francês, armênio, espanhol, holandês, português, japonês, árabe, italiano, dinamarquês, cantonês, hebraico, alemão, inglês e até mesmo guarani e lushootseed (dialeto de algumas etnias nativas da América do Norte), e ao fazê-lo com aparente maestria em cada um desses idiomas, a intérprete consegue tocar num ponto que transcende o processo de cognição de uma ou outra língua: o conceito de uma comunidade cultural global, em que a expressão humana migra livremente e assume formas híbridas aqui e acolá.

Particularmente, eu acredito que esse hibridismo é uma tendência daqui para a frente, em variadas esferas da existência social, como já mencionei aqui. Se é bom ou mau, certo ou errado, cabe a cada observador fazer uso de seu maniqueísmo pessoal para julgar, mas a questão é que se trata de um fenômeno irrefreável. E diante de obras de arte como o trabalho de Haikaa, é ótimo que seja assim. (G.P.)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Mjöd, o vinho de mel


Uma receita original (G.P.)

"Não sei se cada homem que atacou Eoferwic estava bêbado, mas estaria se houvesse hidromel, cerveja e vinho de bétula suficientes. A bebedeira havia ocupado boa parte da noite e quando acordei encontrei homens vomitando ao alvorecer."

CORNWELL, Bernard. O último reino. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 33


O hidromel (também chamado de vinho de mel) é uma bebida antiga, especialmente popular nos países do norte da Europa, onde é conhecido como mjöd. Basicamente, consiste numa bebida alcoólica fermentada a partir de água e mel.

Para produzir hidromel artesanalmente, tudo que você vai precisar, além dos ingredientes descritos abaixo, é de uma garrafa vazia (preferencialmente de vidro), uma bexiga comum e um elástico.

Os ingredientes são:
- 1 xícara de mel
- Água mineral (suficiente para uma garrafa de vinho, ou cerca de 675 ml)
- 2 sachês de chá de cassis (ou outro sabor)
- Suco de 1 Limão
- 2 colheres rasas de chá de fermento biológico para pão (Saccharomyces cerevisiae)

Não é necessário levar essas proporções tão a sério. Normalmente, usa-se uma parte de mel para duas partes de água, além de outros ingredientes não obrigatórios como especiarias e frutas, dependendo do seu gosto. Neste caso, a receita é de apenas uma garrafa de hidromel acrescido de limão e chá de cassis. Comparada a outras receitas, esta usa uma grande quantidade de mel em relação à água, resultando num produto final com sabor e aroma peculiares.

Como fazer:
Primeiramente, você deve ferver a água e preparar o chá, acrescentando o suco do limão. Desligue o fogo e acrescente o mel. A essa mistura dá-se o nome de mosto.

Deixe o mosto esfriar até a temperatura ambiente antes de acrescentar o fermento biológico. Mexa-o bem e prepare-se para engarrafar. Antes, não se esqueça de higienizar a garrafa muito bem, afinal o hidromel irá permanecer nela por um longo tempo e você não quer que outros microorganismos além daqueles contidos no fermento se desenvolvam.

Feito isso, acrescente o mosto à garrafa e use a bexiga para fechar a abertura, fechando-a com o auxílio do elástico como mostra a figura.


O elástico e a bexiga servirão para que o ar do ambiente não entre em contato com o interior da garrafa. Uma vez que a abertura estiver lacrada, todo o oxigênio sobressalente no interior será consumido pelos microorganismos do fermento. E é aí que a mágica acontece: nesse ponto, o fermento começará a quebrar as moléculas de açúcar do mosto em gás carbônico e álcool. Assim, durante a fermentação, o nível alcoólico da bebida subirá até certo ponto, até que o processo se torne mais lento e finalmente pare.

Você saberá que está funcionando porque a bexiga irá inflar, e é importante que você não abra a garrafa durante todo o processo. Guarde-a num ambiente escuro e deixe o hidromel maturando por alguns meses. Depois de algum tempo, você perceberá que o fermento irá decantar no fundo da garrafa.

Quando você finalmente abrir a garrafa, filtros de papel podem ser utilizados para realizar a filtragem da bebida e obter um produto mais claro. Tome cuidado para que o fermento decantado não se misture novamente ao líquido, o que tornará o hidromel turvo.

E é isso aí, o que você terá em mãos é uma bebida artesanal muito semelhante àquela que os vikings e outros povos nórdicos saboreavam há séculos. (G.P.)

sábado, 7 de maio de 2011

O senhor que sabia voar



Durante sua vida sexagenária, ele já havia lido tantos livros de fantasia quanto eram necessários para saber que pessoas podem, de fato, voar. No entanto, ele já havia lido também muitos livros sobre aviação, física e anatomia das aves, tantos quanto eram necessários para saber que seres humanos simplesmente não têm a aerodinâmica necessária.

Mesmo assim, ele sabia que voar era possível, pois já havia conseguido. Várias vezes, na verdade. Tudo o que ele precisava fazer era estender a cabeça para a frente, abrir os braços e saltar na direção da brisa. Depois que já estava no ar, bastava guiar-se na direção pretendida e, de alguma forma, manter o corpo leve. Não era um processo natural, é claro, como ocorre para os pardais, os colibris e as gaivotas; nem sempre ele conseguia levantar voo, e às vezes esbarrava numa árvore ou num prédio. Mas, durante as décadas, ele aprendeu a controlar altitude, velocidade e direção.

Ninguém nunca o havia visto voando. Quando ele era criança, talvez aos cinco ou seis anos, todos os seus voos aconteceram quando nenhum adulto estava por perto. Sua mãe, obviamente, não acreditava que ele pudesse voar, mas era suficientemente inteligente para sorrir com bondade e encorajá-lo nas aventuras que considerava imaginárias.

Depois de adulto, foi a vez de sua esposa desacreditá-lo. “Como pode um banqueiro respeitável, com uma imagem a zelar na sociedade, manter sonhos juvenis como esse?”, dizia ela. Tudo o que ele fazia em resposta era sorrir jocosamente e dar-lhe um beijo na testa, e continuava voando naqueles momentos em que manter a imagem perante a sociedade não era uma prioridade. Voar era uma das duas coisas que lhe davam mais prazer na vida. A outra era observar os elfos que habitavam a árvore em frente à sua casa.

Os elfos eram criaturas extraordinárias. Eram muito similares a humanos, tanto em tamanho como em aspecto, mas algo neles denunciava uma presença quase extraterrestre. Eles emanavam um brilho pálido, como estrelas em forma humanóide, e estavam sempre absortos em algum tipo de labor misterioso, sistemático, que o senhor que sabia voar observava à distância. Envolvidos na metodologia de seu trabalho, os elfos caminhavam graciosamente sobre os galhos da árvore. Às vezes, o senhor que sabia voar tentava comunicar-se com eles, mas eles sempre o ignoravam, e quando ele chegava perto demais, corriam para dentro das folhagens, desaparecendo como se nunca tivessem estado ali.

Os elfos da árvore eram os únicos que o senhor que sabia voar via de perto, mas ele sabia que existiam outros elfos em algum lugar. E os elfos também sabiam voar. Às vezes, ele via grandes grupos de elfos, talvez trinta ou quarenta deles, todos usando capuzes brancos, voando a grandes atitudes de braços abertos sob as nuvens cor de cobalto, sempre do Oeste para o Leste. Ele não sabia aonde os elfos iam, mas gostava de imaginar uma terra de elfos acessível apenas àqueles que sabiam voar. Um dia, talvez, ele voaria até lá.

A primeira pessoa que, de fato, acreditou que ele era capaz de voar foi o seu neto de quatro anos. Quando ficou sabendo das façanhas do avô, nunca fez pergunta alguma em tom de dúvida. “Deve fazer muito frio lá em cima, vovô”, foi tudo o que ele disse. Em seu aniversário de 61 anos, ganhou do neto um cachecol de lã vermelha, para que ele usasse quando estivesse voando. Foi o melhor presente que alguém já havia lhe dado.

Naquele momento, porém, apesar de estar muito feliz, ele já havia começado a perceber que o tempo pode ser um companheiro deveras cruel. Dores terríveis nos joelhos tornavam difícil tomar o impulso inicial na hora de voar e o ar gelado fazia mal aos seus pulmões. Um dia, ele começou a temer que nunca mais conseguisse sair do chão. Resolveu, então, ensinar ao neto como fazê-lo. Durante longas tardes de outono eles praticavam, e às vezes observavam juntos os elfos que passavam voando numa formação em V durante o crepúsculo.

Um dia, porém, tudo acabou subitamente. O senhor foi dormir, depois de tomar o seu chá com cinco gotas de limão, e nunca mais acordou. Seu coração simplesmente recusou-se a continuar fazendo o seu trabalho. Todos pensaram que ele havia morrido, e ficaram muito tristes. Seu neto, no entanto, era o único que sabia que, na verdade, ele havia ido voar com os elfos entre as nuvens de cobalto, onde o joelho não doía e não havia a imagem de banqueiro respeitável a zelar, com o cachecol vermelho ondulando ao vento, para sempre. (G.P.)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tragédias no Japão: opinião e religião


Sim, vou falar sobre opinião e religião. Não espero que todos concordem comigo.

Para começar:
Todos vimos que o terremoto mais forte a atingir o Japão em 140 anos aconteceu na tarde de quinta-feira, 10 de março, e pontuou uma magnitude de 8.9 graus na escala Richter. O abalo sísmico aconteceu próximo à costa nordeste do país, a uma profundidade relativamente baixa, e ainda que estragos tenham ocorrido devido ao terremoto propriamente dito, foi a tsunami decorrente do tremor que causou mais vítimas. Posteriormente, explosões e vazamentos radioativos em Fukushima lançaram ao mundo o temor de um novo grande acidente nuclear.

Até o momento, tenho dois comentários a fazer sobre a reação das pessoas deste lado do mundo. Como eu disse, não espero que todos concordem comigo.

I
Nos dias que se seguiram, ouvi muita gente – inclusive na televisão – dizendo clichês como “com a natureza não se brinca” ou então “a natureza está se vingando”, várias vezes relacionando o triste acontecimento no Japão às agressões humanas ao meio ambiente e até mesmo ao aquecimento global. E isso não faz o mínimo sentido. Basta ter um pouquinho – só um pouquinho! – de discernimento para entender que um terremoto é um fenômeno puramente geológico, sem nenhuma relação causal com as atividades humanas. Se você abraçar um panda e plantar mais de 8 mil árvores, não vai fazer diferença, campeão, porque terremotos são inevitáveis. A natureza não está punindo ninguém. (E até mesmo a relação entre aquecimento global e atividade humana ainda encontra certas linhas de questionamentos científicos. Apesar da tal “verdade inconveniente” fazer sucesso entre ambientalistas e cults que querem parecer engajados, existem trabalhos científicos que relacionam as mudanças climáticas, por exemplo, a ciclos glaciais e muito menos à atividade humana do que esse pessoal gostaria. Bom, essa já é outra história.)

II
Voltando ao Japão, vem aí outro posicionamento que considero igualmente incoerente, desta vez postado em comentários relacionados a vídeos que registraram a tsunami engolindo a cidade de Sendai. Vários desses comentários – e depois encontrei posts inteiros – relacionavam os acontecimentos ocorridos no Japão àquilo que os autores chamaram de culto a “deuses estranhos” ou simplesmente outros deuses. Outro dizia que os japoneses deveriam abraçar Jesus Cristo – o único Deus – e deixar “os seus deuses” para trás. E eu me pergunto: com que critério alguém julga um deus estranho ou não, único ou não? Particularmente, não vejo sentido no discurso de religiosos como esses, que acreditam num Deus de amor, de perdão, de compreensão e de bondade, mas que ainda assim pode se mostrar punitivo ou então omisso ao permitir que os pagãos (e uso o termo sem nenhum juízo de valor) sofram e morram apenas por não serem católicos, evangélicos ou o que quer que sejam. Não questiono a crença, mas o discurso. Penso que falta um pouco de coerência interna. E, falando por mim, a imagem que tenho de Jesus Cristo não é nem um pouco parecida com essa. Se as pessoas pudessem, de fato, conversar com Ele cara a cara, eu acredito que as atitudes que elas tomam diante de suas vidas seriam mais relevantes do que o nome que elas dão aos seus deuses. Acho extremamente incoerente acreditar que pessoas estão sendo “punidas” (ou chame como quiser) porque não seguem uma ou outra religião. O mundo seria um lugar melhor se mais gente abrisse a cabeça para aquilo que é diferente.

E é só isso. (G.P.)

quarta-feira, 9 de março de 2011

悲しみ と 苦しみ

悲しみは 不幸せであり
苦しみは 幸せの逆である。
悲しみは 心に穴をあけ、
苦しみは 心と 身体を 蝕む。
虫が本を 貪る様であり、
あるいは、蛆が 犬の死骸を貪るようである。

(2006)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sobre Paris


A cidade amarela

“Nós sempre teremos Paris.” Mesmo quem nunca assistiu à cena final de Casablanca, clássico do cinema de 1942, já deve ter ouvido a frase emblemática ao menos uma vez na vida. Além de nos remeter à mais famosa das despedidas num aeroporto, numa das cenas que marcaria para sempre a história do cinema, a frase nos remete ao glamour e ao romantismo que normalmente se espera da Cidade Luz.



Muitos deram muitos títulos à capital francesa. Porém, se há um denominador comum adequado para defini-la, muito provavelmente trata-se de sua cor. Paris já foi chamada à exaustão de luminosa e romântica, mas provavelmente não houve muita gente que a definiu como uma cidade amarela. E não amarela simplesmente, mas amarela em suas diversas matizes, seja o dourado vibrante dos portões do Palácio de Versalhes, o marrom desbotado das torres de Notre Dame ou o bege das paredes do Louvre.



Amarela ou não, Paris continua sendo Paris. Estar diante da Torre Eiffel, o monumento pago mais visitado do mundo, ainda é um sonho de consumo para muita gente. A torre, diga-se de passagem, é o maior cartão-postal da cidade e hoje pode ser um orgulho para os parisienses, mas não foi bem vinda durante sua construção. Projetada por Gustave Eiffel, ela foi construída para receber a World Expo em 1889, a mesma exposição cuja última edição foi realizada em Xangai. Naquela época, contudo, os moradores de Paris consideraram que a torre iria contrastar com o panorama da cidade. Mal sabiam eles que, décadas depois, a torre simplesmente seria o panorama da cidade; hoje não existe Paris sem a Torre Eiffel.



Mas Paris, é claro, tem outros pontos de visitação. Para quem desliza pelo Sena a bordo de um bateau-mouche, como são chamadas as embarcações turísticas que navegam pelo rio, haverá um momento em que surgirá uma ilha no caminho. É lá que fica o marco zero da cidade, gravado no piso de pedra sobre o local onde antigamente habitava um povo de origem celta, os parísios, que posteriormente emprestariam seu nome à capital da França. É lá que está também a Catedral de Notre Dame, com suas torres góticas cobertas de gárgulas, nas quais o mítico Corcunda batia os sinos.



Não muito longe dali, não mais na ilha, está o Museu do Louvre, lar da Mona Lisa e outras centenas de obras de arte não menos importantes como, por exemplo, La Liberté guidant le peuple (A Liberdade guiando o povo), pintura histórica de Eugène Delacroix que retrata a liberdade como uma mulher de seios nus carregando uma bandeira à frente da Revolução Francesa.





Foi ela, a liberdade, quem guiou o povo enfurecido ao Château de Versailles em 1789, de onde Luís XVI e sua rainha foram levados para a guilhotina. O palácio, que é um dos pontos turísticos mais visitados da França, foi construído por Luís XIV, o Rei Sol, a partir de um pavilhão de caça. Desde os portões dourados, passando pela opulenta Galeria dos Espelhos e continuando até os jardins, o palácio representa todo o luxo de uma realeza que arrancava suspiros de indignação do povo, até que este, de fato, se indignou e decidiu arrancar algumas cabeças.



E, por falar em arrancar suspiros, é difícil compreender exatamente o porquê de Paris ser, entre tantas outras capitais, a escolhida para fazer suspirar pessoas em todos os continentes. Outras cidades têm mais luz, outras cidades têm mais glamour e outras cidades são mais românticas. Contudo, Paris é amarela. Talvez seja exatamente por parecer uma grande e amarelada fotografia em tons de sépia que a cidade exerça tamanho fascínio, fazendo as pessoas pensarem que a terão para sempre, como os protagonistas de Casablanca. (G.P.)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sem título


"Existem muitas pessoas no mundo...
Existem muitos sonhos diferentes.
Eles se chocam...
Causam lágrimas e risos...
Quantas pessoas são capazes de realizar os seus sonhos?
Quantas pessoas ficam satisfeitas com os sonhos que realizam?
Ninguém tem a resposta a essas dúvidas."

TAKEI, Hiroyuki. Shaman King. São Paulo: Editora JBC, 2005. v. 37. pp. 18-20


Um brinde a isso.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Por que a lua está sorrindo?



为什么月亮要微笑?
是在嘲笑我们,还是她真的觉得开心?


sábado, 18 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sobre As Crônicas de Nárnia: A viagem do Peregrino da Alvorada

Baseado no livro homônimo, o filme As Crônicas de Nárnia: A viagem do Peregrino da Alvorada (The Chronicles of Narnia: Voyage of the Dawn Treader, 2010) é um retorno ao mundo mágico criado pelo autor inglês Clive Staples Lewis. No longa, os irmãos Edmundo (Skandar Keynes) e Lúcia (Georgie Henley) voltam ao reino de Nárnia por meio de uma pintura pregada na parede da casa de seu primo Eustáquio (Will Poulter). Depois de caírem num oceano revolto, as crianças embarcam no navio que dá título à estória, o qual está levando o atual rei de Nárnia, o jovem Caspian (Ben Barnes), a uma jornada em busca de sete lordes exilados de seu reino.



Adornada com belíssimos efeitos 3D, a fotografia de Dante Spinotti é um dos pontos altos deste filme. Sobre o roteiro, contudo, não se pode dizer a mesma coisa. O tropeço na adaptação aconteceu quando se quis transformar a estória num épico, o que se mostra um erro, pois o material original, o livro de Lewis, não é um épico. É uma crônica. É por isso que o título é As Crônicas de Nárnia. Crônicas. Não épicos. Não é a mesma coisa.

Dessa forma, para dar fôlego extra à narrativa, foi necessário enxertar a trama com elementos completamente novos em relação à obra original, a começar por personagens como a mãe raptada pela fumaça verde (e toda a sua família, para não falar da própria fumaça verde), além das espadas dos sete fidalgos, que, de acordo com o roteiro (assinado por Stephen McFeely, Christopher Markus e Michael Petroni) deveriam ser colocadas na mesa de Aslam para vencer o mal que vem da ilha dos pesadelos. Primeiramente, esse “mal” não existe na obra de C. S. Lewis, uma vez que a referida ilha – no livro chamada de “a ilha onde os Sonhos se tornam realidade” – aparece em não mais do que cinco páginas. No livro, o atual rei de Nárnia não parte em sua viagem para vencer mal algum, mas sim por uma questão de honra.

O problema é que para amarrar todos os acontecimentos, foi preciso aumentar o nível de perigo a ponto de criar um épico que dê sequência aos dois primeiros filmes. Assim, cria-se uma urgência maior para se encontrar os sete lordes. Para suprir esse objetivo, contudo, perde-se um pouco da poesia do texto original, especialmente numa estória em que um navio navega rumo ao fim do mundo – num mundo em que céu e mar se unem num oceano de lírios brancos. Se a adaptação seguisse por um outro rumo, talvez tivéssemos uma obra capaz de abranger um pouco mais a busca pelos limites da existência, conceito esse que, na obra de Lewis, surge – veja só! – por meio de um rato e não de um homem.

Ripchip, em pôster de divulgação

O personagem em questão é o ratinho Ripchip, o qual, na minha opinião, é um dos melhores personagens de fantasia já criados até hoje (ao lado de Gandalf e da princesa Éowyn, de O Senhor dos Anéis, e do Morte, da série Discworld – e, antes que muitos se perguntem, sim, Morte é um homem).

Voltando ao Ripchip de Lewis, assim ele é descrito: “Podia-se dizer que era um rato, e era realmente. Mas um rato com cerca de sessenta centímetros de altura, caminhando apoiado nas patas traseiras. Atada à cabeça, por baixo de uma orelha e por cima de outra, exibia uma fina fita dourada na qual se prendia uma pena vermelha. (...) Apoiava a pata esquerda no punho de uma espada quase tão comprida quanto sua cauda.” É essa espada que Ripchip usa para defender veementemente sua honra, e é a mesma que, no livro, ele atira ao mar de lírios antes de ficar para sempre no país de Aslam. É a metáfora de alguém que, mesmo pequeno, lutou por seus princípios e chegou aonde sonhava. A força da metáfora, porém, se perde na adaptação, o que é uma pena.

O que não se perde, felizmente, é a referência cristã que permeia a obra de Lewis. Nesse filme em particular, a maior dessas referências acontece no seguinte diálogo (que pode ser acompanhado na pág. 514 do volume único de As Crônicas de Nárnia, lançado no Brasil pela editora Martins Fontes em 2005):

– Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia. – Como poderemos viver sem vê-lo?
– Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.
– Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.
– Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.

Esse outro nome ao qual Aslam se refere é Jesus. Isso ficou claro no primeiro filme, especialmente quando Aslam morre pelos pecados de um filho de Adão e ressuscita em seguida. É bom constatar que, apesar das diferenças existentes entre as linguagens literária e cinematográfica, essas referências – que são temas fundamentais à obra de Lewis – não passaram despercebidas. Quanto aos outros aspectos que se perderam, só podemos lamentar. (G.P.)

Mais críticas: Alice no País das Maravilhas

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sobre caminhos



Todos vão a lugares diferentes,
mas seguem pelo mesmo caminho.
Todos vão ao mesmo lugar,
mas seguem por caminhos diferentes.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010