domingo, 25 de abril de 2010

Crítica: Alice no País das Maravilhas

Se você não assistiu ao filme, esta crítica pode conter spoilers.



Lançado no Brasil quase dois meses depois de sua première, o filme Alice no País das Maravilhas, da Disney, é aquela história que todos conhecem: a garota cai no buraco do coelho e encontra um mundo completamente insano do outro lado. Parecia, portanto, um material compatível à insanidade genial do diretor Tim Burton.

Balloon Boy, um dos personagens excêntricos criados
pelo diretor Tim Burton, em exposição no MoMA
(Museum of Modern Art of New York)

Antes de qualquer coisa, Alice no País das Maravilhas trata da busca pela identidade, que é um tema recorrente nessa e em outras obras de Burton; a maiorias de seus personagens têm um quê de desajustados nos mundos em que vivem, seja o garoto com mãos de tesoura (Edward Scissorhands, 1990) ou o esqueleto que quer recriar o Natal (Nightmare before Christmas, 1993).

Porém, neste filme em particular, o conceito que mais chama a atenção é a busca por uma identidade em meio à hipocrisia da sociedade, e eu não estou falando apenas sobre Alice (interpretada por Mia Wasikowska). A cena em que o Chapeleiro Maluco (Johny Depp) desmascara a corte da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), formada por impostores que encenam deformidades para fazer a cabeçorra da tirana parecer menos absurda, é uma afronta à hipocrisia. Todavia, a ironia é que a Rainha Branca (Anne Hathaway), ainda que admirada por todos, não é menos hipócrita. Ela passa boa parte das cenas em que aparece desfilando com os modismos de uma princesa e alardeando que não matará uma criatura sequer por ser uma atitude que vai contra seus princípios. Passar a tarefa a outra pessoa, porém, parece ser completamente aceitável para ela, uma vez que Alice é incumbida de matar o dragão. Ou seja, hipocrisia e demagogia. Isso faz a Rainha Branca mais humana do que os personagens supostamente insanos, como a Rainha Vermelha ou a Lebre de Março, mas, ao mesmo tempo, menos digna de apreço. O fato de ela ser assim representada pelo diretor talvez seja uma mensagem velada que Burton e a roteirista Linda Woolverton (surpreendentemente, a mesma de O Rei Leão e A Bela e a Fera) nos quiseram passar.

Alice, por sua vez, também é uma hipócrita que chega ao “País das Maravilhas” dizendo que “não mata”, mas acaba matando o dragão no final após ser manipulada pela Rainha Branca. Como recompensa, ela ganha o sangue da criatura que abateu, o que ao meu ver é uma metáfora muito clara da mancha que perdura sobre o algoz de qualquer ser vivente. A partir daquele momento, ela tem nas mãos o sangue de quem matou.

O Chapeleiro, por sua vez, é o único personagem que se mantém crível em sua loucura. Assim como o Gato Risonho (voz de Stephen Fry), é um dos poucos personagens que não se mostra hipócrita. Também é o único personagem com o qual realmente nos importamos como plateia. A cena em que ele pergunta a Alice se ele é real ou não, por exemplo, nos diz muito sobre sua personalidade e sobre a própria condição humana (assunto sobre o qual eu comentei em outro post): afinal o que é ser “de verdade”?

No caso de Alice, supõe-se que é no mundo surreal que ela vai encontrar sua identidade. Eu, particularmente, não acredito que seja isso o que acontece. Assim como a Wendy de Peter Pan, ela não pode viver sua fantasia para sempre. Em seu mundo imaginário, ela continuaria sendo uma deslocada. Porém, ao voltar ao mundo real e dizer as verdades cruéis que todos não gostariam de ouvir, ela torna-se sócia do ex-sócio de seu falecido pai e ambiciona expandir os negócios ao Oriente. Na época em que a história se passa, Hong Kong ainda está sob o comando da Inglaterra e a China apresenta-se como um novo mundo a ser explorado. Mais do que isso: é um mundo que está ao alcance de Alice. (G.P.)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre o amor

O amor é algo difícil de descrever. Muitos já tentaram ao longo da história e não há uma literatura em todo o mundo que não tenha o amor como assunto central em milhares de suas obras. Poetas de todos os continentes gastaram suas noites e suas penas tentando resumi-lo, ora em algumas linhas, ora em centenas de páginas. Porque o amor é algo que nós buscamos incessantemente. E nós ainda o buscamos, mesmo sabendo que mais cedo ou mais tarde iremos acabar sofrendo – afinal, mesmo que o amor seja infinito, a vida não é. Porém, pode uma vida ser completa sem alguém para dividi-la? No final das contas, é por isso que vale a pena. Pois os inevitáveis momentos ruins são apenas sombras se comparados aos momentos em que nos sentimos completos: dois corpos que se tornam um, duas energias que fluem na mesma direção; não porque precisam, mas porque é tudo o que querem. (G.P.)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sobre sonhos que as pessoas têm

Eu estava conversando esses dias com um amigo dos Estados Unidos... Pinóquio queria ser um menino. Esse meu amigo quer ser um soldado. Ambos querem ser de verdade, seja lá o que isso signifique. É difícil dizer. “Infelizmente, parece que ouvir o zumbido das balas e o rugido dos canhões é menos aterrorizante do que viver mais 50 anos neste mundo incerto”, disse esse meu amigo. Também é difícil dizer o que é mais aterrorizante.

Todos querem ser alguma coisa. É tudo uma questão de ir do ponto x ao ponto y, e a vida é aquilo que acontece no meio. Às vezes – geralmente sempre – não é possível saber o que vai acontecer quando se chega lá. “Então, qual é a razão de tudo isso?”, perguntou meu amigo.

Eu, particularmente, gosto de pensar que deve ser engraçado quando nós chegamos ao final e olhamos para trás. Mesmo que não faça sentido, deve ser uma grande piada. “E quem está rindo?”, perguntou meu amigo que quer ser um soldado de verdade.

É difícil dizer. (G.P.)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sobre Comunicação Internacional / About International Communication

Continuando a discussão que iniciei com meu post #1 (Sobre certo e errado), posto hoje um artigo sobre o desafio de se entender a diversidade. Enjoy!

The Challenge of Understanding Diversity:
Noise in Communication between Nations and Cultures

By Guilherme Profeta

It is undeniable that the 21st century is the age of information, which means that communication was never so agile and so important as it is now. It is also undeniable that today it is so much easier to cross long distances than it was before. With the facilities of fast travel methods, someone can easily arrive from any point of the world to any other point after just a few hours. This is a process that has been developed since the first navigator started to explore the oceans in order to find new worlds. As it was cited by Conrad Phillip Kottak in his book Cultural Anthropology:

...in the 15th century, Europe established regular contact with Asia, Africa, and eventually the New World (the Caribbean and the Americas). Christopper Columbus's first voyage from Spain to the Bahamas and the Caribbean in 1492 was soon followed by additional voyages. These journeys opened the way for a major exchange of people, resources, diseases, and ideas, as the Old and New Worlds were forever linked.

Since that time, and even more with the advent of globalization, these cultural connections became more frequent, congregating in common spaces people who come from different places and -- more important than that -- different cultures. Regarding communication, we can wonder what kind of difficulties these people can face throughout this process and how these difficulties can be avoided.

An emblematic example of problems unchained by international/intercultural communication was the publication of charges of Mohammed, the founder of the islamic religion, and the waves of wrath that they caused against some European countries. This fact happened 4 years ago, initially when the danish newspaper Jyllands Posten published twelve charges of the prophet Mohammed, including one where he appears using a turban with the shape of a bomb. After that, the polemic images were also published in Norway and France, causing a huge international conflict, especially because, according to the foundations of the islamic religion, any visual representation of Mohammed is forbidden. However, according to the freedom of press -- which is a strong principle of democratic nations --, anyone is passible of being criticized, and it doesn't exclude religious characters.

To clarify why this kind of things happen, it is important to understand how communication works. The most known model of communication always includes a transmitter sending a codified message through a channel to a receiver. If some anomaly happens in this process, noise can occur, and by noise we can understand everything that can confuse or disable the functioning of the communication process. After the reception of the message, the receiver decodes and interprets it. This basic model of communication was designed by the engineers Claude Shannon and Warren Weaver in order to increase the efficiency of communication through telephone cables, which means that it is technical-oriented. In the telephone example, the channel would be the cable, and the noise would be just the crackling produced by the wire.

When this model is applied on human communication, the transmitter and the receiver can be individuals or groups of people, as nations or representants of different cultures, for example. The code is the language, and it is determinative to both the communication agents to be familiar with the same idiom. As it was written by Kottak, "speakers of particular languages use sets of terms to organize, or categorize, their experiences and perceptions. (...) Ethnosemantics studies such classification systems in various languages." But that's not all, since the language is not the only factor that contributes to the perception of the receiver. As Kottak afirms, "no language is a uniform system in which everyone talks just like everyone else. Linguistics performance (what people actually say) is the concern of sociolinguistics." Sociolinguistic amplifies the study of communication, adding the social context to the mix (Eckert). In other words, when this model is applied on human communication, there is one more important aspect that can create noise between the decodification and the interpretation. This aspect is the repertory of the receiver, which is the package of previous information that he or she had before receiving the message.

The repertory is an important part of the process, because it works like a filter to the content of the message. It means that two receivers with different repertories can interpret the same message in two different ways. When the communication process happens between transmitters and receivers with different cultural repertories, the possibility of noise during the communication process is increased, because the social context, the protocols, the expectations, and the standards are different. As it was explained by the British anthropologist Edward Tylor, "culture (...) includes knowledge, belief, arts, morals, law, custom, and any other capabilities and habits acquired by man as a member of society," and all these factors are included in the respective repertories of the transmitter and the receiver. Consequently, if the repertories are too divergent, the communication becomes a strong colision of points of view and a source of misunderstandings.

In order to avoid that, the best solution is, at first, being aware of the existence of diversity, and also about the epistemological phenomena that makes diversity possible to happen. Epistemology (also known as Theory of Knowledge) is a field of study that belongs to philosophy, which is concerned to answer how and why people know what they know. If we apply epistemology to the cultural diversity, especially to understand the differences between the repertories of different communication agents, we will conclude that people have different standards because their knowledge comes from different sources. This is possible because of a process called enculturation. According to the author of Cultural Anthropology, "enculturation is the process by which a child learn his or her culture." It is a process that happens exclusively in groups, and, as the author explains, it is learned "by observing, listening, talking, and interacting with many other people."

As it was explained by Crichton in his novel The Lost World, which uses fiction to discuss evolutionism, educating children is the primary reason of the existence of a civilization. According to the author, this happens because, in order to have a bigger brain, the human infants must get out of the female bodies while the rest of their bodies is still fragile. So, unable to defend themselves, the human infants need their parents and a whole network of adults to protect and teach them. It is at this point that the enculturation process begins, and Kottak goes on, entering in the field of Semiotics: "Only humans have cultural learning, which depends on symbols. Symbols have a particular meaning and value for people who share the same culture." So, what happens is that different children who were born in different cultures will assimilate different cultural standards and develop different repertories throughout their lives. If they are aware of that, they can contribute to a smoother communication process when they become transmitters or receivers in an environment of intercultural communication.

According to Deborah Tannen (author of the book The Argument Culture: Moving from Debate to Dialogue, and many other books about gender issues and discourse), no one can deny that balance, debate and the act of listening to the both sides are, as she calls, "noble American traditions." However, she afirms that "yet today, these principles have been distorted." From this affirmation, she defines the argument culture as the United States' communication standard. The argument culture, as Tannen explains it, "urges us to approach the world, and the people in it, in an adversarial frame of mind. It rests on the assumption that opposition is the best way to get anything done." Therefore, if the senders and receivers assume an ofensive or defensive position during the process, which is the most probable hypothesis if they face communication as opposition, the possibility of dialogue is decreased.

After all, the solution for this kind of conflict is the spread of the concept of diversity and acceptance. People must understand that once we consider one's beliefs better than others', this is a new kind of Crusade. Although everyone's beliefs may differ, their values have the same weight than everyone else’s, and that is what equality is about: people do not have to be the same; they just have to be worth the same.

Works Cited
- Crichton, Michael. The Lost World. Ballantine Books, 1996.
- Eckert, P., and J. R. Rickford, eds. Style and Sociolinguistic Variation. New York: Cambridge University Press, 2001.
- Kottak, Conrad Phillip. Cultural Anthropology. New York: McGraw-Hill, 2002.
- Tannen, Deborah. The Argument Culture: Moving from Debate to Dialogue. New York: Ballantine Books, 1998.
- Tylor, Edward. Primitive Culture. New York: Harper Torchbooks, 1958.

Haikai #2



      As folhas de plátano...
                              As flores de cerejeira...
                                                             Ambas tingem os céus.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Odisseia em 5 minutos

A Odisseia, escrita oito séculos antes do nascimento de Cristo, é uma das obras mais importantes da literatura mundial. Trata-se de um poema épico escrito em 24 rapsódias, cuja narrativa influencia a literatura ocidental até hoje. Impressionante, não?

Se você não leu – ou não quer ler – a obra original, aí vai uma versão fast-food para ser apreciada em 5 minutos.

A Odisseia, de Homero, em 5 minutos

Fade in

Telêmaco é um cara que vive em Ítaca, uma ilha grega, e já está com o saco cheio de uma galera que vive fazendo a maior zona em sua casa. Chamados de pretendentes, eles são um bando de nobres que querem se casar com sua mãe, Penélope. Tudo porque o seu pai, Odisseu (também chamado de Ulisses) lutou na guerra de Tróia e, anos depois, ainda não voltou para casa. Pois é, quando o gato sai, os ratos fazem a festa. Num certo dia, os deuses decidem que está na hora de Odisseu voltar para casa, mas o problema é que ele está preso na ilha de Calipso, uma ninfa do mar. Então, Atena, a deusa da sabedoria, desce disfarçada à Ítaca, conversa com um pessoal e arruma para Telêmaco um barco e uma tripulação. Juntos, Atena e Telêmaco partem em busca de Odisseu. Eles param em Pilo, onde conseguem uns cavalos, e Telêmaco parte para Esparta, onde conhece Menelau, marido de Helena e veterano da guerra de Tróia. Menelau diz que ouviu um papo de que Odisseu está vivo numa ilha. Fica aí o mistério e, enquanto isso, os pretendentes se preparam para matar Telêmaco quando ele voltar para casa.

Mais uma vez, os deuses fazem uma reuniãozinha e decidem que Calipso deve libertar Odisseu. Então eles mandam Hermes, o jornalista/relações públicas dos deuses para conversar com a ninfa. Dessa forma, ela liberta Odisseu, que constrói uma jangada e sai navegando tranquilamente. Porém, Poseidon chega de repente e joga uma tempestade sobre Odisseu. Ino (também chamada de Leucotéia), uma entidade que ajuda o pessoal que está naufragando, transforma-se em gaivota e dá a Odisseu uma espécie de colete salva-vidas. Ele chega então ao país dos feácios.

Enquanto Odisseu dorme, Atena (ela de novo!) aparece nos sonhos de Nausícaa, a princesa dos feácios, e a manda lavar roupa no rio. Quando chega ao rio, Nausícaa encontra Odisseu, gosta dele e diz para ele ir bater um papo com o pai dela, pois os feácios sabem construir barcos muito bem. Mas eles são muito xenofóbicos, os safadinhos, e por isso Atena faz um feitiço maroto que o torna invisível. Odisseu conhece então o rei Alcino e, no dia seguinte, eles vão para a ágora (o centro da cidade) e falam sobre a guerra de Tróia. Bate uma emoção em Odisseu e ele chora, mas só Alcino percebe. Mais tarde, os feácios cantam sobre o Trojan Horse (o cavalo de madeira, não o vírus) e Odisseu chora de novo. O rei percebe e pensa “Opa, quem é esse cara?”, fica com a pulga atrás da orelha e vai falar com ele.

Odisseu diz quem é verdadeiramente e assim começam seus relatos aos feácios. Ele diz que, primeiramente, juntou um pessoal e foi criar confusão na terra dos cícones, uma tribo que vivia na cidade de Ismara. Lá, eles levaram uma bela e merecida porrada e foram embora. Chegam então à terra dos lotófagos, ou comedores de lótus, que é uma flor que faz com que aqueles que a comam percam a vontade de voltar para casa. Odisseu convence os companheiros a ir embora e eles chegam à terra dos ciclopes, os gigantes de um olho só, onde são capturados por Polifermo, um dos gigantes. Odisseu fura o olho de Polifermo e eles vão embora xingando e fazendo a maior bagunça, como era o costume.

Chegando em seguida à terra de Éolo, Odisseu ganha um saco onde estão guardados os ventos que poderiam atrapalhá-lo durante a viagem. Éolo diz a ele: “Não abra o saco, champs.” Odisseu obedece, mas os seus amigos o abrem mesmo assim, criando uma tempestade e fazendo com que eles voltem à terra de Éolo, que diz algo como: “Eu avisei que não era para abrir, campeão.” Eles continuam a viagem e se ferram mais ainda quando chegam à terra de uns caras que comem gente. Na sequência, eles chegam à ilha de Circe, uma deusa feiticeira, que dá comida enfeitiçada aos companheiros de Odisseu e os transforma em porcos. Nisso, surge Hermes de novo, que dá umas dicas a Odisseu para lidar com a deusa, que acaba querendo sexo. Papo vai, papo vem, eles ficam lá durante um ano, até que Circe manda Odisseu ao Inferno (também chamado de Hades) para conversar com Tirésias, o adivinho cego.

Chegando ao Inferno, Odisseu encontra uma galera morta, incluindo sua mãe Anticléia e seu companheiro Elpenor. Tirésias dá a ele duas dicas: primeiro, diz para que eles não comam as vacas de Hélio (wtf?!) e, depois, para que ele fique esperto com os pretendentes de Penélope, que são todos uns safados. Lá embaixo, ele encontra ainda Aquiles, Minos, Hércules e muitos outros famosos do mundo grego.

Mais uma vez, Odisseu volta para a casa de Circe, de quem recebe instruções para o resto da viagem, principalmente para ter cuidado com as sereias e parar de querer resolver tudo na pancadaria. Quando eles se encontram com as sereias, os amigos de Odisseu usam cera para tampar os ouvidos, mas Odisseu, todo safadão, quer ouvir o famoso canto, então ele é amarrado ao mastro do navio, de onde não poderia fugir e se atirar ao mar. Depois disso, eles chegam à ilha do Sol e comem as vacas de Hélio – sendo que não comê-las havia sido a única advertência útil que Tirésias deu a Odisseu. Resultado: Zeus manda um raio para que eles fiquem mais espertos. É depois disso que Odisseu vira prisioneiro de Calipso.

Assim termina a história que Odisseu estava contando aos feácios. O pessoal o leva então de volta para casa. Quando ele chega à Ítaca, Atena (disfarçada primeiro de pastor e depois de uma bela mulher) diz que ele deve procurar o porqueiro, que é um empregado fiel, mas disfarçado de mendigo e não com sua verdadeira aparência. Enquanto isso, Atena vai buscar Telêmaco (o filho dele, que saiu para procurá-lo, lembra?), que ainda está em Esparta. A deusa diz a Telêmaco para voltar para casa rápido, mas para ir à casa do porqueiro antes de qualquer coisa. Chegando lá, pai e filho se reencontram. Muito comovente.

Odisseu, ainda disfarçado de mendigo, volta à sua antiga casa. Estando disfarçado, ele diz à Penélope (sua mulher, que não sabe quem ele é) que viu Odisseu (ele mesmo) em Creta. Ela declara que irá propor um concurso entre os pretendentes para se casar com aquele que vencer. Neste meio tempo, uma criada lava os pés de Odisseu e o reconhece devido a uma antiga ferida.

Começa então o concurso para ver quem irá se casar com Penélope. A competição consiste em retesar um arco que pertencia a Odisseu e lançar uma flecha por entre os buracos de doze machados, uma prova consideravelmente difícil. O pessoal tenta, mas ninguém consegue retesar o arco. Odisseu, ainda como mendigo, consegue, é claro. Neste momento, uma música heróica estaria soando se isto fosse um filme. Chega o momento da pancadaria final, quando pai e filho lutam lado a lado. Os pretendentes morrem. Depois disso, Penélope reconhece Odisseu quando ele descreve a cama que ele mesmo havia feito, a qual está sustentada por um tronco de oliveira.

No fim, Atena coloca panos quentes para que ninguém mais brigue em Ítaca e é feito um juramento de paz para o futuro. Olha só que bonitinho!

Fade out

E essa é a Odisseia, de Homero, em cinco minutos. Por hoje é só. (G.P.)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sobre fantasia, jornalismo e dinossauros


Quando eu era criança, era de dinossauros que eu realmente gostava. Eu sabia os nomes de muitos deles e costumava assistir a Jurassic Park repetidamente, às vezes escondido embaixo da cama durante as partes que eu considerava mais assustadoras. Naquela época, eu queria ser paleontólogo; a ideia de passar horas num deserto escavando ossadas enterradas há milhões de anos me parecia muito tentadora. Foram sobre dinossauros os primeiros livros que li e, desses, eu parti rumo à literatura fantástica. Desde então, não parei de ler e, consequentemente, escrever. Para mim, ambas as atividades fazem parte de um processo único e irrefreável.

Sendo um apreciador irremediável de fantasia, desde a realista à mais absurda possível, é esse o gênero que mais me dá prazer. Foi escrevendo esse gênero que tive meus dois primeiros livros publicados há quatro anos e, ainda hoje, é esse o gênero com o qual eu realmente gosto de lidar. Assim, é desnecessário dizer que considero a fantasia algo inebriante. Como certa vez já disse o meu autor favorito, Terry Pratchett, “Fantasia é como o álcool. Em excesso faz mal a você, mas um pouco toda semana torna o mundo um lugar melhor.” Ele é autor de uma épica série de mais de 30 livros, além de obras independentes, e sua fantasia é a mais absurda e inteligente com a qual eu me deparei até hoje. Mas, mais do que escrever fantasia, o que ele faz é uma releitura crítica do nosso mundo como nenhum outro escritor considerado “sério” é capaz de fazer. E, além disso, ele é jornalista.

Chegamos portanto ao Jornalismo, o ofício que, tal qual o autor que admiro, eu escolhi para mim. Não posso dizer que o escolhi porque amo ser repórter ou editor. Na verdade, o que eu amo mesmo é escrever, e não é só na fantasia que eu encontro personagens e temas. Até mesmo porque, corriqueiramente, a realidade pode se apresentar mais inverossímil do que aquilo que a maioria das pessoas considera fantasia. E, ao formatarmos essa realidade, a colocarmos em caixas e vendê-las ao mundo, também estamos criando uma parcela de fantasia. É uma questão semiótica: se eu disser para duas pessoas imaginarem uma flor, cada uma delas imaginará uma flor diferente. O mesmo vale para tijolos, por exemplo, e qualquer outro signo mundano. Simples assim, porque signos não são sólidos.

Ideias também não são sólidas – apesar de que algumas delas podem causar mais estragos do que, digamos, tijolos. Elas só precisam de uma partícula de inspiração para entrar em ebulição, e aí elas passam a querer escapar. E assim, o que eu faço é trazê-las à tona, como o paleontólogo que tira os ossos do seio da terra e revela o passado. No final das contas, eu estou fazendo o mesmo que aquele garotinho cheio de sonhos sobre dinossauros gostaria de fazer. (G.P.)

terça-feira, 16 de março de 2010

Sobre um horizonte compartilhado

O melhor comercial que vi até hoje foi o premiado “Feel the globe”, da Nokia, que rendeu ao seu criador, o japonês Hiroki Ono, o primeiro lugar em Cannes num concurso de filmes feitos com celular. Mais do que publicidade, eu considero este vídeo uma verdadeira obra de arte no que diz respeito à concisão, à estética e ao conteúdo.



Em português:

“Antigamente, as pessoas acreditavam que o mundo era plano/ Eu sempre senti o mesmo, até que você foi para o outro lado do mundo/ Agora, eu sei que nós compartilhamos o mesmo horizonte/ Meu pôr do Sol é o seu nascer do Sol”
(G.P.)

domingo, 14 de março de 2010

Sobre sacrifícios

Recentemente, li uma notícia sobre um jovem que teria vendido um rim no Egito com o intuito de pagar as despesas de seu casamento (veja aqui), o que me fez refletir brevemente sobre o motivo que leva um homem a sacrificar um órgão por dinheiro. Talvez o sonho do matrimônio, ou a preferência por alguns valores em detrimento de outros? Isso não importa muito para a minha breve discussão, pois todos têm o direito de sonhar com o que quiser e escolher o que vale a pena sacrificar ou não; e, sinceramente, essa conversa de “inversão de valores” já está um pouco passada. Também não tenho a menor intenção de criticar o capitalismo, porque (como eu já disse em outro post), certo e errado são conceitos muito fortes para se definir levianamente.

A questão aqui é o sacrifício. E aqui vai um exemplo pessoal: certa vez, na saída de um supermercado, deparei-me com uma senhora idosa carregando a clássica placa improvisada onde se lia “will work for food” (algo como “trabalho por comida”). Trata-se de uma cena deprimente, ainda mais por tratar-se de uma senhora em idade avançada. Porém, uma garota que se encontrava comigo na ocasião – mais uma vez, uma colega chinesa – colocou as coisas em perspectiva dizendo “Mas todos nós trabalhamos por comida”, o que não deixa de ser verdade. Ao ler a notícia sobre o rapaz egípcio, lembrei-me do pragmatismo do insight daquela garota. O que estou questionando aqui não é a dignidade do trabalho, mas a sua finalidade em última instância. Apesar de muitos discursos empapados de moral que pregam a edificação do caráter, o trabalho sempre irá lhe trazer alguma vantagem – geralmente financeira – ou, caso contrário, não haveria motivação para fazê-lo. E, ao sujeitar-se ao trabalho, você sacrifica o seu tempo.

No final, das contas, todos estão sacrificando alguma coisa para chegar a um ou outro resultado. Às vezes é uma preciosa parcela do tempo de nossas vidas, que poderia ser aproveitada para outra coisa, às vezes é um rim. (G.P.)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sobre hibridismo e cultura

O mundo já não é tão grande como costumava ser. Fato. Como escreveu Conrad Phillip Kottak, autor de Cultural Anthropology, “no século XV, a Europa estabeleceu contato regular com a Ásia, a África e eventualmente com o Novo Mundo (o Caribe e as Américas). A primeira viagem de Cristóvão Colombo da Espanha às Bahamas foi seguida por viagens adicionais. Essas jornadas abriram caminho para um maior intercâmbio de pessoas, recursos, doenças e ideias conforme o Antigo e o Novo Mundo uniam-se para sempre.” Com a posterior globalização, as pessoas passaram a se encontrar muito mais facilmente. Um voo do Brasil à China, por exemplo, leva cerca de 24 horas. E com isso, é claro, estamos contando apenas a facilidade da interação física. Através da internet, a comunicação é instantânea, o que faz com que o hibridismo cultural se torne muito mais fácil.

De acordo com o dicionário online Michaelis, híbrido é o “indivíduo que resulta do cruzamento de dois genitores de espécies, raças ou variedades diferentes.” Quando se cruza um leão com um tigre, por exemplo, cria-se um indivíduo híbrido chamado liger ou tigon (lion + tiger). Quando se cruza uma cultura com outra, cria-se algo como o exemplo abaixo, e a possibilidade de diversidade cresce exponencialmente.

San Francisco, nos Estados Unidos, tem a maior China Town fora da Ásia. Assim como São Paulo é o lugar mais japonês fora do Japão, San Francisco é o lugar mais chinês fora da China. Lá, pode-se observar exemplos de miscigenação cultural como este: uma cruz cristã no topo de um edifício de arquitetura tradicionalmente oriental.

Assim, num mundo fecundo à hibridização de culturas, outros exemplos vão surgindo:

A canção Sweet Lullaby, tradicionalmente uma manifestação étnica das Ilhas Salomão, foi gravada por um pesquisador na década de 70 e posteriormente utilizada pelo grupo musical francês chamado Deep Forest, que especializou-se num tipo de world music que consiste na mixagem de canções étnicas com música eletrônica. A canção provocou certa polêmica devido à questão dos direitos autorais, mas é um exemplo emblemático de hibridismo cultural.


A canção di yi bai ling yi ge da na (第一百零一个答案), da cantora chinesa Jiang Mei Qi (江美琪) tem clara influência do tango argentino. É algo sobre o que não poderia se pensar alguns séculos atrás.

E cultura híbrida é um termo que tem muita relação com o Brasil. Afinal, o que é a identidade brasileira senão uma total hibridização cultural?

Neste ponto, vale citar um exemplo pessoal. Durante a escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, eu estava estudando nos Estados Unidos. Ao encontrar-me diariamente com estudantes do mundo todo, percebia vez ou outra uma certa segregação natural. No refeitório, por exemplo, havia a mesa dos chineses, a mesa dos europeus, a mesa dos latinos, e por aí vai. Nós, brasileiros, por outro lado, estávamos cada dia em uma das mesas, transitando por todo o mapa-múndi sem muita dificuldade.

Sobre isso, nosso presidente discursou ao Comitê Olímpico. O presidente Lula já deu algumas escorregadas em seus discursos várias vezes, é verdade, mas devo dizer que ele se saiu muito bem desta vez. “Olhando para os cinco aros do círculo olímpico, vejo neles o meu país, um Brasil de homens e mulheres de todos os continentes. Americanos, europeus, africanos, asiáticos, todos orgulhosos de suas origens e mais orgulhosos de se sentirem brasileiros”, disse ele, e acrescentou: “Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado. É o que faz nossa identidade.”


E por quê? O que nós temos de diferente?

Como escreveu Darcy Ribeiro no livro O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil, o contingente imigratório brasileiro foi “composto, principalmente, por 1,7 milhão de imigrantes portugueses, que se vieram juntar aos povoadores dos primeiros séculos, tornados dominantes pela multiplicação operada através do caldeamento com índios e negros. Seguem-se os italianos, com 1,6 milhão; os espanhóis, com 700 mil; os alemães, com mais de 250 mil; os japoneses, com cerca de 230 mil e outros contingentes menores...” Em outras palavras, veio gente de todos os cantos. E mais gente continua vindo, enquanto nós continuamos indo.

O mundo já não é tão grande como costumava ser. Fato. (G.P.)

terça-feira, 9 de março de 2010

Haikai #1

As palavras gélidas
são ainda mais cortantes
que as espadas gélidas.

domingo, 7 de março de 2010

Sobre certo e errado

Estudando jornalismo, encontro de vez em quando pessoas que querem salvar o mundo. Mais do que isso, às vezes elas querem mudar o mundo; e muitas são ávidas para julgar o certo e o errado de uma maneira genérica, muitas vezes sem considerar o contexto dos acontecimentos. E contexto é uma coisa muito importante.

Eu me lembro de um fato interessante que presenciei em Pittsburg, uma cidadezinha no interior do Kansas, bem no meio dos Estados Unidos. Sobre Pittsburg, podemos dizer que, geograficamente, ela fica agradavelmente no meio do nada. Ainda assim, devido ao campus da Pittsburg State University estar lá localizado, ela é um microcosmo do mundo, cheia de estudantes de todos os continentes vivendo juntos. É um caldeirão cultural.

Num fim de semana ocioso em Pittsburg, fui conhecer uma igreja católica com um amigo brasileiro declaradamente pagão e uma garota chinesa cujo nome ocidental é Amy. Ela nunca havia entrado num templo religioso cristão antes e sua noção sobre o Cristianismo era bem restrita. Uma vez lá dentro, fomos recebidos cordialmente por um padre, que nos mostrou os aposentos da igreja e, devido à curiosidade de nossa colega chinesa, nos levou ao confessionário. Ela já havia visto confessionários antes em filmes exportados pelos Estados Unidos, mas não sabia exatamente qual era a sua função. Então, o padre explicou a ela os fundamentos da confissão católica, dizendo que a confissão servia para absolver a pessoa de seus pecados e tudo mais. “Mas isso quer dizer que uma pessoa pode fazer coisas erradas, pedir perdão e fazer as mesmas coisas de novo?”, perguntou ela ao padre. Ele confirmou que sim. “Então como elas vão aprender?”, rebateu ela, com genuína curiosidade. Entendendo o mundo com sua mentalidade não-Cristã, a absolvição concedida pela confissão católica deve soar bem incoerente, devo admitir. Ainda naquele mesmo dia, outro tópico que provocou certa dúvida em Amy foi a hóstia. “Quer dizer que vocês comem o seu Deus?”, questionou ela. E essa pode parecer uma pergunta banal, mas eu não acredito que seja. Muito pelo contrário, trata-se de uma questão de muito valor epistemológico, se você quer saber. Ora, por que é que nós fazemos o que nós fazemos?

Se pensarmos sobre isso sob a ótica de nossa sociedade, tem muita gente que acharia inconcebível não saber a respeito de Jesus, de nosso Deus com D maiúsculo e por aí vai, mas a maioria dessas pessoas não sabe absolutamente nada sobre as crenças do outro lado do mundo. Como é que alguém pode julgar o que é certo e o que é errado, e com base em quê? Nós fazemos o que fazemos da forma que fazemos porque foi assim que aprendemos. Em outros locais, outras pessoas aprenderam outras coisas com base em outras culturas. Que também estão certas.

Voltando àquelas pessoas que pretendem corrigir o mundo (mas na verdade só querem adequá-lo aos seus espelhos), eu não sei se o problema é ingenuidade, ignorância ou prepotência. Na verdade, eu acho que a maioria das pessoas tem dificuldade para entender que, para que uma coisa seja certa, as outras não precisam necessariamente ser erradas. E assim, elas saem por aí propondo suas Cruzadas particulares diárias, talvez sem perceber que certo e errado, em última instância, só dependem do lado em que você se encontra.

Um cara chamado Shakespeare já disse há um tempo que “nós somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos.” A questão é que, se nós mantivermos a mente aberta o suficiente, vamos perceber que não só nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos, mas nossos sonhos – os nossos e os dos outros – também são feitos da mesma matéria. Eles podem ser diferentes, mas são equivalentes.

Trocando em miúdos, vamos tratar de abrir a cabeça. (G.P.)