sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sobre arsênio, fósforo e novas formas de vida

Segundo divulgação da Nasa, a agência espacial estadunidense, foi descoberto o primeiro microorganismo terrestre capaz de prosperar e se reproduzir utilizando o arsênio, que é um elemento químico tóxico para outras formas de vida. Ainda segundo a agência, a descoberta mudou a nossa compreensão sobre a vida na Terra – e, quem sabe, em outros lugares.

A descoberta foi fruto de uma pesquisa da bioquímica Felise Wolfe-Simon, que identificou no lago Mono, na Califórnia, uma nova bactéria chamada GFAJ-1. Conforme ela explicou numa reportagem publicada no site da agência especial, já eram conhecidas anteriormente bactérias capazes de respirar arsênio; a nova descoberta, contudo, vai além disso, pois os microorganismos descobertos são capazes de incorporar o arsênio em suas constituições celulares. Em outras palavras, eles podem ser feitos de arsênio!

Todavia, o arsênio não é um dos seis elementos fundamentais para a vida – muito pelo contrário, uma vez que age como um veneno para a maioria dos seres vivos. Carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, enxofre e fósforo, quando combinados, formam os compostos fundamentais para o que se entendia por vida até a descoberta de Wolfe-Simon. Dessa forma, o fósforo, sendo parte integrante do DNA, era até ontem considerado um elemento obrigatório para a vida. Durante a pesquisa, porém, os cientistas isolaram as bactérias numa solução salina e, gradativamente, substituíram o fósforo pelo arsênio. O resultado foi que as bactérias integraram a substância em suas estruturas celulares em substituição ao fósforo. Consequentemente, um dos elementos até então considerados fundamentais estava faltando, mas a vida não deixou de existir.

Isso muda a concepção que temos sobre o que é vida e abre novos horizontes para a astrobiologia, ciência que busca seres vivos fora da Terra. Até quinta-feira, quando se buscava vida no universo, procurava-se pelos seis elementos fundamentais, mas a descoberta da Nasa mostrou que é possível a existência de um ser vivo baseado em outros elementos. Como identificá-lo, então? A pergunta é: nós seríamos capazes de reconhecer um ser vivo tão diferente mesmo que nos deparássemos com ele?

Essa descoberta abre não apenas novas possibilidades, mas também uma lacuna em nossa compreensão: afinal, o que faz com que nós sejamos o que nós somos? Ainda que saibamos que seja possível existir vida baseada em elementos diferentes daqueles que nos constituem, ainda não somos capazes de definir com precisão o que é a vida. E também não somos capazes de criá-la sinteticamente. Podemos, sim, sintetizar proteínas e outras substâncias, mas como torná-las funcionais? Ao que parece, falta ainda descobrir como acender a última centelha. (G.P.)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Sobre Jornalismo aqui e acolá



“Poeticamente podia-se dizer que o Jornalismo é a vida, tal como é contada nas notícias de nascimentos e de mortes (...). É a vida em todas as suas dimensões, como uma enciclopédia.” Assim disse o acadêmico português Nelson Traquina em seu livro Teorias do Jornalismo.

Ora, se o jornalismo é a vida, o jornalista é o cara que conta todas essas histórias de nascimentos, mortes e tudo o que acontece no meio. Jornalistas são, portanto, contadores de histórias, e histórias são, em última análise, interpretações. Fazer jornalismo, dessa forma, é interpretar a realidade e transformá-la numa narrativa.

No Brasil, porém, sinto que o jornalismo abusa do declaracionismo, digamos assim. Parece-me que a maioria dos jornalistas brasileiros simplesmente joga seu texto entre duas aspas, citando o que alguém falou e tirando assim o peso de suas próprias costas, o que certamente diminui o risco de levar um processo – ou quem sabe uma porretada na nuca num beco escuro. Talvez por uma questão de autopreservação, muitos de nossos jornalistas se ocupam em responder as perguntas do lead (o quê, quem, quando, onde, como e por quê?) e, passado o primeiro parágrafo, tudo o que resta são blocos de citações, e isso é tudo.

Como se não bastasse, penso também que muitos dos nossos jornalistas preocupam-se demais em manter em seus textos uma linguagem sóbria e séria que diz: “Olhe para mim, eu sou um cara culto, ok? Eu escrevo enquanto bebo whisky e afago o meu cavanhaque grisalho”, ou então – numa versão mais esquerdista – “Eu já li O Capital três vezes só este ano, nunca comi um Big Mac e só ouço música popular brasileira, de preferência escrita por alguém que foi exilado durante a ditadura”. Ok, estamos nos desviando da questão. O fato é que, comparativamente, sinto falta de criatividade em nosso jornalismo.

Lendo o New York Times, por sua vez, sinto que lá o jornalista tem mais autonomia para reportar o que ele presenciou – e não apenas o que alguém disse. Além disso, parece que há mais espaço para que o autor salpique no texto o seu estilo literário, o que torna a narrativa mais densa e indiscutivelmente mais saborosa. Enquanto aqui as fontes soam muitas vezes mecânicas, no jornalismo ao qual o New York Times aparentemente se propõe, elas soam mais humanas, como personagens de um livro cuja trama é escrita diariamente. E jornalismo não é isso?

Aqui vai um exemplo: No dia 15 de setembro, o New York Times publicou uma reportagem sobre a queda da influência política do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, e a ascensão da Liga Norte (o partido político oposto). O texto, assinado por Rachel Donadio, foi intitulado A New Power Broker Rises in Italy (numa tradução livre Uma nova influência política cresce na Itália). Segue um trecho da reportagem em questão:

All of which has empowered one man in particular: Umberto Bossi, leader of the Northern League, who is known for extra salty language, wearing tank tops and continuing to smoke cigars even though a stroke took away a good part of his voice.

Traduzindo:
“Tudo isso fortaleceu um homem em particular: Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, que é conhecido pelo seu palavreado pungente, por vestir camisetas regatas e continuar a fumar charutos ainda que um derrame tenha tirado boa parte de sua voz.”

Palavreado pungente, camisetas regatas e charutos. Está aí uma descrição que, no Brasil, seria encontrada mais nos romances do que nos jornais. É dessa irreverência que eu estou falando. Mesmo que não haja uma foto, você é capaz de enxergar o personagem em suas idiossincrasias caricatas.

É difícil dizer se um jornalismo é pior ou melhor do que o outro – apesar de eu ter, é claro, uma opinião pessoal. Ouso dizer, contudo, que muitos dos profissionais que fazem o nosso jornalismo orgulham-se em defender a bandeira da tão sonhada “objetividade”. A criatividade começa a morrer aí. Será que ser objetivo é apenas copiar num caderninho – ou num smartphone, que seja – o que o entrevistado disse e reproduzir entre aspas nas páginas de um jornal? Se é isso que nós estamos fazendo, meu amigo, então nós não passamos de gravadores que sabem datilografar.

Sinto que no jornalismo brasileiro falta espaço para o feeling do repórter, aquele olhar poético e sagaz que vai passar para o leitor não só meia dúzia de palavras entre duas aspas, mas fazer com que o cara de fato imagine uma cena, quase como faz um escritor. Na minha modesta opinião, vale a pena pensar sobre isso. (G.P.)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre Hatsune Miku e um futuro (não tão) distante

Hatsune Miku tem 16 anos, mede 1,58 m de altura e pesaria 42 kg se não fosse uma projeção. Criada pela Crypton Future Media Inc., empresa de produção fonográfica localizada em Sapporo, no norte do Japão, Hatsune foi desenvolvida por meio da tecnologia Vocaloid, que cria vozes sintéticas e permite ao usuário compor músicas e adicionar interpretações vocais a elas sem a necessidade de um intérprete real. É um fenômeno novo na indústria audiovisual, mas vai além. Pois Hatsune Miku não é apenas uma voz; ela é uma diva completa. Baseada no design dos personagens do mangá japonês, ela escapa das telas de computadores e Ipods para cair num ambiente bem mais real, digamos assim. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Tenho de concordar que, neste caso, é verdade. Para entender, nada melhor do que assistir ao vídeo do show de Hatsune "ao vivo":



Hatsune Miku é uma interface entre o mundo binário e o mundo tridimensional. Ao ser inserida num palco diante de centenas de espectadores, porém, ela deixa de ser uma simples projeção para se tornar o simulacro de uma cantora pop. Nesse ambiente, ela é capaz de despertar no público as mesmas emoções e sensações que uma cantora real despertaria. Talvez até mais, considerando-se o seu design de grande apelo. Da interação entre a diva holográfica e o público de carne e osso, nasce um novo tipo de fetichismo – que dificilmente seria criado num local que não fosse o Japão. E ela faz a gente se perguntar: o que é real?



Esse tipo de projeção não é uma novidade tão inédita no entretenimento. Atrações da Disney já fazem uso desse recurso há algum tempo. A novidade, porém, é a realização de um show completo estrelado por uma cantora que não existe, cujas canções não foram gravadas na íntegra por uma dubladora real, mas geradas por um programa de computador. Quando o público se relaciona com um software da mesma forma que o faz com uma pessoa real, isso faz a gente se perguntar qual é o limite na relação entre homem e máquina.

Esse tipo de tecnologia encontra críticas ocasionais, principalmente vindas das gerações mais antigas, que se perguntam o que acontecerá com as relações interpessoais no futuro. Bem, por enquanto Hatsune Miku ainda precisa do fator humano presente na criatividade do compositor, pois, obviamente, ela não cria suas próprias músicas. Mas o que vai acontecer quando novos softwares permitirem às máquinas tomarem decisões por si próprias? Pode parecer ficção científica, mas isso já acontece com os robôs que viajam em Marte, por exemplo, que são capazes de analisar o ambiente e tomar algumas decisões sem precisar da autorização de seus controladores da Nasa.

Imaginemos então um mundo em que máquinas, ou suas representações holográficas, tomem decisões e se reproduzam como faz o ser humano. Dizemos – pelo menos deste lado do mundo – que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Em teoria, podemos supor então que nessa “semelhança” está incluído o potencial que o homem tem de criar um outro “ser” à imagem e semelhança do próprio homem. Quando o avanço tecnológico culminar num andróide capaz de tomar suas próprias decisões e fazer cópias de si mesmo, talvez seja impossível diferenciá-lo de um ser vivo. Até lá, Hatsune Miku nos dá uma agradável prévia. (G.P.)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

É um mundo pequeno, afinal das contas...

Obrigado a todos pelas visitas internacionais que o blog tem recebido até o momento. Registro meus agradecimentos aos 20 países que já passaram por aqui, incluindo as visitas não registradas.

Thank you all for the international visits that the blog has received until now. I register my thanks to the 20 coutries which have been here, including the non-registered visits.



Thank you; merci beaucoup; gracias; धन्यवाद; 감사합니다; 谢谢; Спасибо; danke; ありがとうございます; grazie; آپ کا شکریہ ; obrigado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Narrativa Visual: China ontem e hoje

Viajar pela China é, sob vários aspectos, caminhar entre o antigo e o novo. Trata-se de um país que passa por intensas e visíveis transformações em todos os sentidos, num ritmo que dificilmente pode ser observado em outro lugar do planeta. Nesta fotorreportagem, o leitor poderá apreciar imagens que marcam o contraste de uma nação que sempre despertou a curiosidade do mundo. Aprecie! (G.P.)

Clique nas imagens para ampliar.
Os textos referentes a cada página estão disponíveis em inglês embaixo de cada uma delas.

Visual Storytelling: China yesterday and today
In many ways, travelling in China is a walk among the old and the new. That’s a country which faces all kinds of intense and visible transformations, in a pace that can hardly be seen anywhere else on the planet. In this photo-article, the reader will be able to observe images which represent the contrast of a nation that has always aroused world’s curiosity. Enjoy! (G.P.)

Click the images to enlarge.
The English version for the text of each page is available under the pictures.



Around Beijing, the Great Wall of China rests upon the mountains like a sleeping dragon. In the center of the capital, the waters reflect a pavilion of the entrance to the Forbidden City, where the emperor and his entourage lived for centuries. The Temple of Heaven was the place where the emperor went to burn incense and take part in other religious ceremonies.

One night in Beijing, 我留下许多情。
不管你爱与不爱都是历史的尘埃陈升。
(Chen Sheng and Liu Jiahui)

"One night in Beijing, and I leave behind some feeling.
It doesn’t matter if you love it or not, it’s covered by the dust of history. "



大海 航行 靠 舵手, 干 革命 靠 毛泽东 思想.

"If you want to sail the sea, you must trust the helmsman; if you want to undertake a revolution, you must trust President Mao."

That's a famous Chinese sentence in support to the revolutionary leader Mao Zedong (1893-1976), who founded the Chinese Communist Party and started the Cultural Revolution.

Clockwise: a communist monument in Guiyang, a wall adorned with communist art in the main area of Shanghai, a locked door in the Forbidden City, and Mao's portrait on the Tiananmen Square in Beijing.

Closed doors
Mao ruled China from 1949 to 1976. After his death, Deng Xiaoping became the President, being declared as responsible for the economic opening of China.




Open doors in the Forbidden City

Detail of the Water Cube, the aquatic stadium of the 2008 Olympic Games


Mc Donald’s
in Chengdu, the capital of the Sichuan province


The new and the old in Shanghai




One world, one dream
Under this theme, Beijing hosted the Olympic Games in 2008. Among the Olympic constructions, the highlights were on the National Stadium, known as the Bird's Nest. The event received an investment of $ 40 billion, and was a showcase of the new China to the world, preparing the way to the realization of the World Expo 2010 in Shanghai.



World Expo 2010
"Better City, Better Life" is the theme for the 2010 World Expo, an event held since 1851 which includes the participation of 242 countries and international organizations. Yet today, more than 50 cities have hosted the expo. To host the exhibition in Shanghai, China invested U.S. $ 45 billion. A total amount of 70 million visitors are expected until the enclosure, which will happen on October 31.


The global capital of the 21st century
After hosting the World Expo, Shanghai consolidates its status as a global city, a title given to major cities with great importance for the global economic system, like New York, Paris, Tokyo and London, for example. The ambition of Shanghai, however, does not stop there: the city intends to be the global capital of the 21st century.


Mais sobre a China/More about China:
World Expo, Jiuzhaigou, Vila de Xijiang Miao

Mais imagens/More pictures: Flickr

sábado, 9 de outubro de 2010

Sobre Jiuzhaigou


Um tesouro escondido nas alturas


Após apaixonar-se profundamente por uma deusa, um garoto ofereceu a ela um espelho feito de vento, o único presente que se equiparava à sua beleza. A deusa, por sua vez, quebrou o espelho em inúmeros pedaços, e cada um deles transformou-se num magnífico lago espelhado.



A lenda em questão narra o mito por trás da criação de Jiuzhaigou, complexo de três vales em forma de Y localizado ao Norte da província de Sichuan, na China, o qual se estende por mais de 700 quilômetros quadrados e, fazendo jus à lenda, é recheado de lagos coloridos. Lagos esses que transformam o local num patrimônio da humanidade e num dos cartões postais da China. Hoje, tem-se a chance de desbravá-lo.

Um voo de tirar o fôlego
Para chegar aos vales de Jiuzhaigou, é preciso voar primeiro para alguma localidade próxima. O local está situado a 330km de Chengdu, a capital da província de Sichuan – que ficou famosa mundialmente depois do grande terremoto em 2008. Todavia, apesar de não estar consideravelmente longe, o acesso por terra é demorado devido às condições geográficas locais; partindo da capital, uma viagem terrestre através das montanhas pode levar mais de 10 horas. Por isso, mais fácil é voar de Chengdu até o aeroporto de Jiuzhaigou Huanglong. O voo leva cerca de 40 minutos e, ao se pousar num aeroporto localizado 3400 metros acima do nível do mar, tem-se uma vista de tirar o fôlego, especialmente quando se voa por entre montanhas salpicadas de neve e cobertas de pinheiros. Uma vez em terra, Jiuzhaigou fica a cerca de 90 km do aeroporto.

A partir daí, segue-se por uma estrada cheia de curvas e desfiladeiros. Segundo dados oficiais, a altitude em Jiuzhaigou varia de 2000 metros acima do nível do mar na entrada do parque a mais de 4500 metros nos cumes das montanhas, o que possibilita a existência de uma longa cadeia de paisagens e ecossistemas estratificados. Devido à altitude elevada, os guias recomendam que não se faça atividades físicas bruscas. Idosos e pessoas com doenças respiratórias ou vasculares devem ter cuidado redobrado. Nem todos sentem a diferença, é verdade, mas é possível ver pessoas utilizando bombas de oxigênio.




Beleza natural que parece magia
É impossível separar os lagos da aura mística do lugar. Num deles, por exemplo, as lendas dizem que uma divindade derrubou sua maquiagem por descuido ao utilizar a superfície como espelho. É daí que teriam vindo os magníficos tons de azul e verde das águas do lago conhecido como Colorful Pool (ou Piscina Colorida).


As cores deslumbrantes, segundo a lenda, surgiram
quando uma divindade derrubou sua maquiagem nas águas

De fato, o reflexo nas águas é algo que merece destaque por si só. Não seria de se admirar que suas superfícies plácidas, ocasionalmente beijadas pelo vento, fossem realmente usadas como espelho em tempos antigos. A limpidez da água é outro fator importante; alguns dos lagos têm nove metros de profundidade, mas a água é tão límpida que é possível enxergar os peixes e troncos caídos em suas profundezas.

Talvez seja por isso que um desses lagos tenha sido escolhido como cenário do filme Herói, dirigido pelo renomado Zhang Yimou e estrelado por Jet Li e Zhang Ziyi, em 2002. No longa metragem, a superfície espelhada do Lago do Bambu-Flecha reflete de forma poética as acrobacias aéreas do kung fu.





Arrow Bamboo Lake: cenário de cinema

Não é por menos que o Parque Nacional de Jiuzhaigou é considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Cultura, Ciência e Educação) desde 1992. O título é conferido apenas a localidades de extrema importância, seja natural ou cultural, e a China, tanto devido à sua extensão territorial como à sua história milenar, é um dos países com maior quantidade de patrimônios da humanidade registrados. Inclusive, outro desses patrimônios, a Reserva Natural de Huanglong, encontra-se a poucos quilômetros ao Sul de Jiuzhaigou e é outra parada obrigatória para quem se aventura pelas montanhas de Sichuan. Lá as atrações são as piscinas naturais de formação calcária que se estendem magnificamente por entre a floresta de coníferas.

Um vale de riqueza cultural
Além da beleza natural, outro atrativo de Jiuzhaigou é a oportunidade de presenciar e experimentar um pouco da cultura tibetana. A China está dividida oficialmente em 56 etnias, sendo que o povo tibetano é uma delas. O próprio nome Jiuzhaigou, que em chinês significa “Vale dos Nove Vilarejos” faz referência às vilas tibetanas espalhadas pelos vales. Uma vez que Sichuan faz divisa com o Tibete, a região é uma das áreas onde se pode vivenciar manifestações culturais únicas: desde os costumes tradicionais do budismo tibetano, passando pela música característica que parece ter sido criada especialmente para ressoar nos vales rochosos e chegando, é claro, à gastronomia, que inclui carne e leite de iaque – aquele bovino de pelo longo característico do Himalaia. Além disso, a culinária tibetana incorpora ingredientes da medicina tradicional chinesa.


Cultura tibetana em Jiuzhaigou


Rodar as rodas de oração, segundo a tradição tibetana,
traz bons augúrios; e a echarpe de seda branca é um sinal de boas vindas




Ainda que hoje se conheça registros de pessoas habitando Jiuzhaigou há milhares de anos, foi apenas em 1972 que o local foi oficialmente descoberto pelo governo chinês. Em termos históricos, especialmente quando se trata da China e suas dinastias milenares, é uma descoberta muito recente. Em termos geológicos, então, não é mais do que um piscar de olhos. Por muito tempo, Jiuzhaigou permaneceu um tesouro escondido nas alturas e ainda hoje, é um refúgio para aqueles que apreciam paisagens exuberantes e imaculadas. (G.P.)

Mais sobre a China:
World Expo, Vila de Xijiang Miao, China ontem e hoje

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre futuro e destino



Futuro é algo que está prestes a acontecer. É inevitável, porém frágil.

Liberdade é o ato de tomar responsabilidade por aquilo que vem depois que o presente acaba.

Destino é algo que luta contra o caos inerente à existência. É construído a cada dia e, esperançosamente, ruma à posteridade brilhante.

O amor é o que faz muitas das engrenagens girarem. (G.P.)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sobre a realidade

Quando você olha para algo que está à sua frente, o ato de enxergar não acontece em tempo real. A luz viaja a 299792458 metros por segundo, é verdade, o que quer dizer que a fração de tempo necessária para que a luz chegue aos olhos é ínfima. Some a isso outra ínfima fração de tempo para que a informação visual seja processada em estímulos elétricos e você terá, em termos gerais, pouco mais que nada. Ainda assim, não enxergamos em tempo real. Ou seja, o que nós vemos no presente já é passado, uma realidade no limbo entre o que existe e o que é visto.

Assim sendo, poderíamos continuar divagando sobre a efemeridade ou sobre aquele cara que atravessou o rio, mas não. Hoje o assunto é realidade. E também interpretação, porque uma coisa não funciona sem a outra. Vamos lá então.

Definição de dicionário: real, do latim reale, é aquilo “que tem existência no mundo dos sentidos”. Em outras palavras, se você sente, é real. Muitas vezes, porém, as pessoas sentem coisas que não são passíveis de mensuração empírica. Seguindo essa definição, tudo que alguém pode sentir é tão real quanto, digamos, uma tijolada entre as omoplatas na calada da noite. Mas o dicionário continua: real é aquilo “que não é imaginário”. Porém, é difícil definir o que é imaginário ou não. Até porque, numa perspectiva quântica, tudo é energia, e, portanto, tudo é nada. Os átomos e as sinapses mais alcoolizadas são ambos feitos de nada. É algo que os budistas já sabiam há muito tempo e que a Ciência com C maiúsculo vem descobrindo recentemente – mas essa é outra história.



O fato é que imaginação e realidade (ou realidade e interpretação individual da realidade, o que muitas vezes não é muito diferente de imaginação), sob a ótica certa, podem ser separadas apenas por uma linha tênue, como o reflexo de uma montanha e a própria montanha. Quem é que pode dizer o que é mais real? (G.P.)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sobre a paz perdida num ponto do globo



Na vila de Xijiang Miao (西江苗寨), uma garota descansa em frente a um rio. Essa vila pertence ao Parque Nacional do Monte Leigong, no condado de Leishan, centro da China, e é um dos lares do povo Miao - uma das 55 minorias étnicas chinesas. Lá, onde o tempo parece ter parado de fluir entre as montanhas verdes e as plantações de arroz, é possível entender um pouquinho do que realmente se trata a paz.

In the Xijiang Miao Village (西江苗寨), a girl rests in front of a river. This village belongs to the Mount Leigong National Park, in Leishan county, center of China, and it's one of the homes of the Miao people - one of the 55 Chinese minorities. There, where time seems to have stopped flowing among the green mountains and the rice fields, it's possible to understand a little bit of what peace is really about.

西江苗寨,一个女孩正在河畔休息。该苗寨位于中国的中心,地处雷山县境内,属于中国雷公国家公园的一部分。另外,西江苗寨是中国55个少数民族之一——苗族的发源地。在那里,时间似乎在青山绿水以及稻田的美景中停滞,而正是在这样的景色中,人们或许可以真正感受到和平的真谛。



Localização aproximada / approximate location / 大概方位:
26°29'48.10"N - 108°10'27.71"L




sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sobre atravessar o rio

Vamos pensar sobre aquele cara que, hipoteticamente, atravessou o rio. Ao chegar ao outro lado, ele deixou de ser “o cara que nunca atravessou o rio” para se tornar “o cara que já atravessou o rio”, mudando assim não apenas a si mesmo, mas o mundo inteiro, que deixa de ser “o mundo no qual aquele cara específico nunca havia atravessado o rio” e passa a ser “o mundo no qual aquele cara específico já atravessou o rio”. Parece insignificante, mas, numa perspectiva ampla, são fatos assim que mudam todo o resto. É aquela velha história da borboleta batendo as asas num lado do mundo e causando um furacão no outro lado; você nunca sabe os desdobramentos que as suas ações terão daqui a um segundo ou um século. As variáveis são muitas. Previsões perfeitas são uma ilusão, pois o destino é uma coisa extremamente frágil. Uma palavra pode iniciar uma reação em cadeia e, BUM!, quando você se dá conta, "buckle your seatbelt, Dorothy, ‘cause Kansas is going bye bye!" (G.P.)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sobre a efemeridade (+ haikai #3 e haikai #4)

“Nós somos efêmeros”,
às flores da cerejeira
o homem falou.

Não tem rumo certo
a libélula que vaga
no mundo efêmero.

A efemeridade é a qualidade daquilo que é efêmero, transitório, cuja duração é curta. Por algum motivo, este é um conceito que soa assustador e belo para mim. Tudo que é efêmero é mais frágil e, portanto, digno de maior apreço. É claro que tudo – sem exceções – é efêmero, se você pensar nisso ao extremo.

Amazing Sky

Airport worker
Um crepúsculo, é claro, é efêmero.

Loneliness

Sweet poison
Uma gota sob ação da gravidade é obviamente efêmera.

Sunset in Beijing

Pigeon and infinity
Nuvens são efêmeras.

E o que não é? Nós também somos. O próprio universo, para quem acredita no Big Bang, é efêmero; quando ele deixar de se expandir, tempo e espaço (e todo o resto) voltarão para dentro do ovo cósmico. Para quem acredita no Juízo Final, o mundo também é efêmero. Não importa; sob a perspectiva da eternidade, tudo que é finito é efêmero.

Então, tudo o que se tem é uma única chance para tudo. Se eu não me engano foi Heráclito quem disse que não se pode atravessar um mesmo rio duas vezes. É verdade. Quando você chega do outro lado, você se torna o cara que já atravessou o rio uma vez, e esse cara é diferente do cara que nunca atravessou o rio. As águas também serão outras, de forma que as versões anteriores de você e do rio não mais existirão. É a idiossincrasia de cada segundo; a idiossincrasia de qualquer coisa, na verdade. (G.P.)