sábado, 26 de novembro de 2011

Sobre a interdependência

Você teve uma discussão séria com alguém na noite passada, disse coisas que não deveria ter dito e foi dormir muito chateado. Por isso você não dormiu bem e, por isso, acordou alguns minutos depois do que de costume. Então você se levantou, lavou o rosto, tomou o seu café, apanhou suas chaves e, quando você estava saindo da garagem, um ônibus desgovernado passou a centímetros do seu carro antes de se chocar contra um poste. Caso ele o tivesse atingido, você não teria nenhuma chance de sobreviver, mas você escapou porque estava alguns minutos atrasado. Porque não dormiu bem. Porque discutiu com alguém. E aí você começa a se perguntar se aquela discussão não teria salvado a sua vida. Os acontecimentos da noite passada, organizados num equilíbrio perfeito, fizeram com que você sobrevivesse. Se você não tivesse discutido com aquela pessoa, suas tripas estariam espalhadas no asfalto, mas não; você está vivo.

Num outro dia, você acordou muito cedo porque tinha uma viagem internacional marcada para aquela manhã. Ao cruzar um semáforo, você acelerou no sinal amarelo em vez de parar e esperar pelo vermelho. Por isso, você chegou um minuto mais cedo ao aeroporto e, ao fazer o check-in, a atendente lhe ofereceu a possibilidade de mudar a passagem para um outro voo que decolaria trinta minutos antes. Uma ótima ideia, você pensou, e aceitou a oferta, sem saber que aquele avião específico sofreria uma pane elétrica e cairia sobre o mar logo após a decolagem. Antes do fim derradeiro, durante os breves momentos de lucidez entre a descompressão e o choque contra a água, você se pergunta se o fato de ter ultrapassado aquele sinal amarelo não teria destruído a sua vida. Os acontecimentos daquela manhã, organizados num equilíbrio perfeito, fizeram com que você morresse. Se você não tivesse acordado tão cedo, se você tivesse parado no semáforo e se a atendente não tivesse lhe oferecido a troca de passagem, você estaria num outro avião lendo um jornal e tomando uma taça de vinho branco, mas não; você está morto.

Pense por um momento sobre a complexa engenharia de possibilidades que foi necessária para que você viesse a estar exatamente onde está agora. Pense em tudo o que poderia ter acontecido se você mudasse um detalhe do seu passado. Apenas um detalhezinho, você poderia pensar, mas um detalhe que poderia iniciar toda uma reação em cadeia. Você acorda um minuto mais tarde, e está vivo; você acorda um minuto mais cedo, e está morto.

Algumas pessoas atribuem esses fluxos de acontecimentos a Deus, a deuses, ao karma ou simplesmente ao destino. Ou ao caos. Todas essas interpretações são belas, cada uma a sua maneira. Talvez haja um deus tomando conta de tudo isso, e talvez não haja, mas, de qualquer forma, tudo está relacionado, emaranhado para o bem, para o mal, ou para ambos. Essas questões fazem a gente pensar sobre como as coisas estão relacionadas umas às outras, por mais que, a princípio, não consigamos perceber toda a interdependência contida na existência. E não apenas na existência humana, mas no próprio balé do cosmo e na configuração da matéria que nos dá forma.

Estou longe de ser um especialista em física quântica, mas, vez ou outra, gosto de acompanhar o que os físicos andam fazendo por aí. Não tenho dados precisos, mas recentemente acompanhei o resultado de um experimento publicado, por meio do qual cientistas descobriram que alguns fótons (as partículas elementares da luz) têm “irmãos gêmeos”, os quais, apesar de não se encontrarem fisicamente interligados, têm a capacidade de reagir a estímulos sofridos pelo outro “irmão”. Assim, se você estimular um fóton, o outro sofrerá o mesmo estímulo, estando ele a alguns milímetros, quilômetros ou – teoricamente – do outro lado do universo. Relativizando (com muita liberdade poética), é o mesmo que pegar duas maçãs, deixar uma num lado de uma sala, levar a outra até o outro lado, mordê-la e perceber que a outra – aquele que ficou sozinha no outro lado – também foi mordida. Esse experimento com os fótons “irmãos” mostra uma interdependência entre as partículas que os físicos não conseguem explicar; definitivamente há algo que os une, mas ainda não é possível determinar o quê.

De uma maneira ou de outra, também estamos nós todos interconectados, seja pelas relações causais de ação e reação, ou por nossa constituição quântica. Na literatura budista, a dialética do Sutra do Diamante diz que “A não é A. Por isso, ele realmente é A.” Esse conceito se torna mais claro a partir da explicação do monge vietnamita Thich Nhat Hahn (em sua obra A essência dos ensinamentos de Buda, publicada no Brasil em 2001): “Uma flor não é uma flor. Ela é composta de elementos não-flor, como o sol, as nuvens, o tempo, o espaço, a terra, os minerais, os jardineiros etc. Uma verdadeira flor contém em si o universo inteiro. Se devolvermos qualquer destes elementos à sua origem, não existirá mais a flor. É por isso que podemos dizer com segurança: ‘Uma rosa não é uma rosa. Por isso, ela é uma autêntica rosa.’ Temos que eliminar o conceito de rosa se quisermos tocar a verdadeira rosa.”

Como diz o autor, para que uma flor seja uma for é preciso um equilíbrio perfeito de elementos supostamente alheios à flor – mas que na verdade não o são. Todos nós estamos inseridos nesse mesmo equilíbrio, de forma que, sob última análise, é impossível determinar o fim e o começo de qualquer coisa que seja. Você não é você. Você é todo o resto. Por isso, você é você. O todo está na unidade assim como a unidade está no todo. (G.P.)

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre coisas que você joga fora, versos reencontrados e "para sempre"

Às vezes as gavetas ficam cheias demais. Durante anos, você vai acumulando todo tipo de coisa – algumas mais importantes que outras – e chega um momento em que você precisa jogar algo fora. Geralmente, isso me causa um certo desconforto. Não pelo ato em si, mas pelo que ele representa. Em algum momento, você guarda; em outro, você joga fora. A cada uma dessas limpezas, de certa forma, você joga fora algo de si mesmo, e é assim que as coisas são.


Eis que eu estava limpando uma gaveta recentemente, relendo algumas anotações sobre fatos que hoje já não têm a mínima importância e lotando a lata de lixo, quando encontrei uma cópia impressa de O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto, um poema sobre a seca na região Nordeste do Brasil que eu estudei numa aula de Gêneros Literários há alguns anos. Sinceramente, não foi um poema do qual eu gostei – o tema não é dos meus favoritos –, mas três versos chamaram a minha atenção de forma especial. Na época, inclusive, eu rabisquei “wow! \o/” ao lado deles.


Os versos diziam:

Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Na época, essas palavras soaram muito verdadeiras, e ainda soam. Sonhos não são espessos, são coisas finas, delicadas, frágeis. Frágeis como bolhas de sabão. Frágeis como coisas que as pessoas dizem. Às vezes eles são tão frágeis que são capazes de destruir a si mesmos...

E por falar em coisas que as pessoas dizem, ontem eu assisti ao filme Under the Hawthorne Tree (山楂樹之戀), de Zhang Yimou. Uma obra de arte, como eu já esperava.


A narrativa se passa durante a Revolução de Mao, na China, época em que a jovem Jing é enviada ao campo para passar por um processo de reeducação junto aos camponeses, como era costume no regime Maoísta. Lá, ela se apaixona pelo filho de um membro do partido comunista, com o qual ela não pode se envolver. Uma vez que seu pai é um preso político e eles vivem numa sociedade em que os antecedentes familiares são muito valorizados, outro passo em falso poderia prejudicar o futuro de toda a sua família. Assim, Jing e o rapaz vivem um amor inocente e secreto. Porém, ainda que esteja disposto a esperá-la enquanto for necessário, ele é acometido de uma leucemia que o vitima rapidamente. E é aí que surgem as coisas que as pessoas dizem... Suas últimas palavras, as quais ele não chega a dizer verbalmente, são:

‎"我不能等你一年零一個月了, 也不能等你到二十五歲了, 但是我會等你一輩子。"
(Eu não posso esperar por você por um ano ou um mês, e não posso esperar até que você tenha 25 anos, mas eu vou esperar por você durante minha vida inteira.)

"Vou esperar você durante minha vida inteira" é uma coisa maravilhosa para se dizer – ainda que a vida dele tenha sido muito curta. No final das contas, uma "vida inteira" e "para sempre" são o mesmo: tudo o que se tem diante das incertezas da eternidade. E, tal qual os sonhos e as coisas que as pessoas dizem, o "para sempre" também é frágil. Não há "para sempre" que dure para sempre. (G.P.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sobre o homem que viajou no tempo




Ele havia sido o primeiro homem a viajar no tempo. E, então, lá estava, diante de si mesmo quando ainda era um garotinho, não mais do que cinco palmos acima do chão, olhando para ele cheio de curiosidade autêntica, como se, de alguma forma, fosse capaz de reconhecer a si mesmo várias décadas mais velho. Como se soubesse o que aquilo significava.

Como havia sentido saudades de si mesmo... Quando havia sido a última vez em que fora tão inocente? Tão capaz de alimentar as próprias fantasias? Tão feliz, talvez – ou ao menos algo próximo a isso? Ah, como ele gostaria de contar a si mesmo tudo o que iria acontecer, prepará-lo para as escolhas que teria de fazer e os erros que iria cometer. “Ah, se você soubesse...”, pensava ele, “se você pudesse saber antes.”

Mas ele não podia. Havia regras bem claras sobre isso: as pessoas só podem saber o que deveria ter sido feito depois que a possibilidade de fazer algo diferente já passou. Nada de segundas chances para aqueles que viajam no tempo. É assim que as coisas funcionam, e por isso não havia nada que pudesse ser dito.

O garotinho olhou para si mesmo e deu um passo à frente. O homem mais velho abaixou-se e os dois se olharam por um breve momento. Mesmo sem dizer nada, eles sabiam o que cada um estava sentindo. Dentro de cada um deles, havia algo do outro: um pouco do passado no futuro e, se é que era possível, um pouco do futuro no passado.

Ainda em silêncio, o garotinho tocou a barba do homem, e depois puxou de leve a sua gravata, achando graça naquilo que iria se tornar. E o homem abraçou o corpinho pequeno e frágil com todo o carinho, sabendo o peso de cada uma das escolhas que ele iria fazer até que decidisse voltar para aquele dia.

Sem dizer nada, eles apenas sorriram. Pelo mesmo motivo? Por motivos diferentes? Nenhum dos dois poderia dizer verdadeiramente. E, então, cada um seguiu seu caminho. O mesmo caminho, mas caminhos diferentes, um dia de cada vez. (G.P.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

About life

How many things have you left behind since you arrived this world? Who would you like to be with one more time? Which memories do you keep as the most important and fragile treasure?


La Maison en Petits Cubes (2008, written by Kenya Hirata,
directed by Kuni Katō, music by Kenji Kondo)

Who are you among all these portraits, after all?

People say that when you are about to die, you can see your whole life again. I don't believe that. But I do believe there must be something that pops up in your mind before the very end. What does that little fraction of memory mean? What does it define? Maybe one will find out only when it's too damn late. (G.P.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre máscaras

Kamen, by Rin'

会えると信じてる見えない仮面取り去って
光出会う

Tossing away the invisible mask,
one faces light.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sobre a essência de todas as coisas

"To try to find the figure in the carpet of one's writing can be as chilling as trying to find it in one's life; to weave, post facto, a figure in – 'this is what I meant to say' – is an intense temptation."

“Tentar achar a imagem na tapeçaria dos seus escritos pode ser tão desanimador quanto encontrá-la em sua vida; tecê-la, post facto – ‘era isso que eu queria dizer’ – é uma intensa tentação.”

Clifford Geertz


O que é a imagem senão a essência de uma tapeçaria?
Buscar a imagem numa tapeçaria é buscar nada menos que a sua razão de existir. Procurar a imagem, portanto, é procurar a essência das coisas.
Os escritos geralmente têm uma mensagem essencial, um cerne ao redor do qual as narrativas se constroem de modo a embasar o que foi escrito, e as pessoas têm a propensão de tecer suas vidas da mesma forma.
É daí que vem a tentação de tecer sentidos para as coisas depois que elas já aconteceram (post facto), pois é isso que nós fazemos: tecemos histórias e estórias, construindo uma imagem para a tapeçaria, esperançosos por achar um sentido maior para todas as coisas, algo que finalmente nos mostre qual é a essência da vida. (G.P.)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sobre O Rei Leão, o ciclo sem fim e nostalgia

Dezessete anos já ficaram para trás desde a estreia do clássico O Rei Leão, lançado pela Disney em 1994. Inspirada em Hamlet, de Shakespeare, a saga de vida e morte nas savanas definitivamente marcou o imaginário de uma geração, produzindo arrepios nostálgicos a cada vez que o Sol se levantava sobre as planícies africanas.


Por meio do personagem de Simba, o tradicional “herói que retorna”, milhares de jovens espectadores aprendiam pela primeira vez que todos os seres vivos estão interligados num ciclo interminável que abarca a todos, das gazelas mais frágeis ao mais forte leão. Aprendiam também que a morte tem um sabor deveras amargo e que, invariavelmente, as coisas vão dar errado – e algumas delas nunca poderão ser corrigidas.


Tudo isso por meio das técnicas de animação em 2D, as mesmas utilizadas em outras obras de arte como A Bela e a Fera, A Pequena Sereia e Mulan, filmes que – correndo o risco de parecer saudosista – não encontram paralelo nas obras lançadas atualmente.


Em 2011, para apresentar a narrativa a uma nova geração, chega às lojas a nova versão Diamond Edition do disco blu-ray de O Rei Leão, além da versão 3D para exibição nos cinemas, a qual eu assisti – vejam só! – na mesma sala em que, numa idade bem mais tenra, assisti ao filme original pela primeira vez. E eis que, quase duas décadas depois, pude ouvir uma nova criança chorando ao assistir à morte de Mufasa, para o deleite dos espectadores mais velhos, como eu. É clichê, eu sei, mas isso faz você se dar conta de que o ciclo sem fim, de fato, continua girando sem parar. (G.P.)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Viver...

...é fazer a melhor escolha a partir do que o acaso joga para você.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sobre multiculturalismo, sangue e o belo ato de dançar pelo mundo


É difícil entender o porquê de uma pessoa odiar o multiculturalismo. Mais do que isso, é difícil entender como tal ódio pode culminar em atitudes extremas como o atentado de 22 de julho, ocorrido em Oslo, capital da Noruega.

Motivado por um posicionamento político ultranacionalista e pela repulsa principalmente a judeus e islâmicos, o empresário Anders Behring Breivik, 32 anos, utilizou bombas manufaturadas a partir de fertilizantes para atentar contra a sede do governo norueguês. Na sequência, ele rumou para Utoya, uma ilha a cerca de 40 km do centro da capital, onde estava sendo realizado um acampamento de jovens promovido pelo Partido Trabalhista norueguês, de centro-esquerda. Disfarçado de policial, ele atirou contra os jovens, matando 68. Os dois atentados, que deveriam chamar a atenção para a causa de Breivik, resultaram em 70 vítimas fatais.

“Posso não concordar com o que dizem, mas defendo até a morte o direito de dizer.” A frase é atribuída a Voltaire, filósofo francês que viveu entre os séculos XVII e XVIII, e ainda é relevante, especialmente numa nação democrática como a Noruega, onde um indivíduo tem o direito de ter suas próprias opiniões – ainda que sejam opiniões como a de Breivik. Afinal, negar o direito de alguém expor sua opinião é, de certa forma, negar a própria pluralidade. O que é inadmissível é que esse direito à opinião seja usado como combustível para calar opiniões alheias e ceifar vidas inocentes como aconteceu na capital norueguesa.

Ironicamente, é em Oslo que o Prêmio Nobel da Paz é entregue anualmente a pessoas que tenham contribuído para a fraternidade entre as nações e se destacado em seus esforços pela manutenção da paz mundial.

Ainda assim, sangue foi derramado na capital da paz.

Acontecimentos como esse fazem a gente se perguntar qual é o futuro do conturbado mundo pós-moderno. A Guerra Fria se foi, o mundo polarizado ficou para trás e – ainda que muita gente prefira se fechar em suas fortalezas como um caracol – as fronteiras caíram e as culturas fervilham por aí.

O vídeo Where the Hell is Matt? é resultado do trabalho de Matt Harding,
que viajou pelo mundo fazendo sua dancinha aqui e acolá,
com pessoas diferentes em mais de 40 países


O mundo não é mais apenas multicultural, mas intercultural. E, provavelmente, ele será um lugar melhor quando as pessoas dançarem juntas, onde quer que elas estejam, a despeito de suas cores, suas línguas, seus deuses e suas visões políticas. (G.P.)

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